Psicanálise e misoginia: as mulheres tem inveja do pênis?

Misoginia e Psicanálise
Misoginia e Psicanálise


[Esclarecimentos iniciais:
  • Vou falar apenas do ponto de vista das pessoas cisgênero porque Freud não escreveu sobre pessoas trans já que provavelmente nem chegou a ter algum paciente com essa condição para poder teorizar sobre. Se hoje pessoas trans são marginalizadas e invisibilizadas imagina naquela época? Odeio ficar associando a presença de pênis exclusivamente a homens ou a ausência do mesmo exclusivamente as mulheres já que existem pessoas trans em que isso nem sempre se aplica, mas entendam que realmente naquela época não existiam noções dessas coisas. Pessoas cisgênero são o oposto de pessoa transgênero, ou seja, gente cuja identidade de gênero concorda com o gênero atribuído ao seu sexo biológico;
  • Não estou criticando a teoria feminista: tenho muito respeito pela luta das mulheres. Como sou homem não me sinto como uma pessoa adequada para falar ou debater sobre feminismo que não é a minha vivência. Nesse texto falo sobre polêmicas de acusações de que a teoria psicanalítica seria misógina, mas vou falar do que tenho propriedade que é a Psicanálise, abordagem que gosto e estudo e esclarecer equívocos que muitas pessoas têm, incluindo algumas feministas;
  • Não estou negando problemas nas teorias de Freud e Lacan sobre a sexualidade feminina: realmente há muitas questões problemáticas que são apontadas por mulheres, que leram e estudam, ou seja, críticas muito pertinentes. Porém, aqui eu apenas procuro discorrer sobre eventuais equívocos na teoria da 'inveja do falo' que causam muita confusão. Para falar sobre o machismo deles eu precisaria ler mais e eu não sei se sou a pessoa adequada para fazer isso já que sou homem;
  • A existência de problemas na teoria não significa que todas as contribuições de Freud e Lacan sejam descartáveis, e, ao mesmo tempo, não devemos endeusá-los: eles podem errar como qualquer ser humano. Estamos falando de ciência não de religião.
Espero que gostem!]


Siga nas redes sociais: 👍 Facebook | 💬 Twitter | 📷 Instagram | 📌 Pinterest
🔔 Seja um padrinho! Conheça minha campanha no Padrim

___________________________ 

Dicas de leituras complementares

Esse artigo foi escrito principalmente utilizando como referências os livros abaixo. Se tiver interesse, clique nos links para adquiri-los na Amazon Brasil:


por J-D. Nasio
Édipo: O complexo do qual nenhuma criança escapa - J.-D. Nasio
O que é o complexo de Édipo? A partir de sua vasta experiência como palestrante e clínico, J.-D. Nasio analisa separadamente o desenvolvimento do conceito mais crucial da psicanálise no menino e na menina. Sempre claro e objetivo em suas exposições, avalia a presença do Édipo na raiz das neuroses ordinárias e mórbidas do homem e da mulher, e sintetiza os principais tópicos relativos ao tema – como a castração, a figura do Falo e o papel exercido pelo pai nesse processo. Ao longo do livro, seções curtas com esquemas e quadros comparativos. E ainda: um apanhado de citações-chave de Freud e Lacan sobre o Édipo.

___________________________


Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros textos.

Freud (1901-1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros textos: Obras completas Volume 6 - Companhia das Letras (versão das obras completas do Freud traduzidas diretamente do alemão)
Este sexto volume das obras completas de Freud traz textos fundamentais para o entendimento da psicanálise, como Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, que recorre a sexólogos contemporâneos do psicanalista e às observações feitas a partir de seus pacientes para enfatizar a centralidade do sexo na vida humana. Tratando das aberrações sexuais, da sexualidade infantil e adulta, Freud amplia e reformula o conceito de sexualidade. Outro grande texto deste volume é “O caso Dora”, primeiro dos cinco casos clínicos mais importantes de Freud. Interpretando dois sonhos de “Dora”, ele procura desvendar seus sintomas histéricos e sua correlação com a recusa do sexo.
___________________________

Senso comum sobre Psicanálise

A tentação de ficar no senso comum.
(Imagem retirada da internet)
"Nada é mais justamente distribuído que o senso comum: ninguém pensa que precisa mais do que realmente já tenha." 
- René Descartes
Existe muito senso comum sobre Psicologia, mas principalmente quando falamos de Psicanálise. Direto eu me deparo com textos na internet dizendo: "Freud disse isso" ou "Freud disse aquilo" e na massiva maioria das vezes essas afirmações estão bem equivocados ou no mínimo incompletas. Tomem cuidado com o que vocês leem sobre Psicanálise por aí, tentem procurar fontes mais confiáveis como livros e artigos científicos!

Penso que isso acontece porque as teorias psicanalíticas não são leituras fáceis. Freud escrevia muito bem, mas a dificuldade está na complexidade delas. Acredito que por abordar temas muito delicados e tabus as pessoas acabam tendo resistência a compreender completamente o que ele propôs. Pois, é, já faz uns 100 anos que Freud criou essas teorias e até hoje elas são tabus.


Também são leituras desconcertantes por tratarem de questões sobre o Inconsciente que muitas vezes não queremos admitir para nós mesmos. Entender as teorias, pode significar admitir que essas coisas existem dentro de nós, então será que não é mais fácil simplesmente rejeitá-las? Não estou dizendo que todo mundo que discorda da teoria psicanalítica está fazendo isso com essas motivações, ok?

Algumas pessoas também utilizam conceitos freudianos de forma totalmente equivocada para propagar preconceitos. Exemplo: tem um pastor famoso brasileiro que é formado em Psicologia e claramente fez o curso com o objetivo de usar o conhecimento de forma antiética para manipular os fieis (não vou dar nomes para não gerar polêmica).

Ele diz que a teoria do Complexo de Édipo comprovaria que crianças não podem ser criadas por casais homoafetivos porque isso prejudicaria o desenvolvimento delas e isso é falso. Freud, inclusive escreveu uma carta em 1935 em que ele fala para uma mãe que homossexualidade não era uma patologia. Confira a carta:


Deixando claro que eu não sou contra a religião cristã ou evangélica, estou criticando a postura antiética de um pastor em específico, ok? Sei muito bem que existem fiéis e sacerdotes que não compactuam com essa postura.

Uma das teorias psicanalíticas mais polêmicas e mal interpretadas é a teoria da inveja do falo. De um lado temos pessoas machistas que utilizam essa teoria de forma distorcida para menosprezar as mulheres e do outro, temos feministas que dizem que ela é machista e misógina.

A confusão ocorre em partes por culpa do próprio Freud mesmo que nomeou a teoria como "inveja do PÊNIS" ("penisneid" do alemão) literalmente. Irei explicar nesse artigo o que realmente essa teoria propõe.


Sigmund Freud era machista?

Freud era machista?

De acordo com a teoria feminista, e várias outras teorias sobre opressão, todos os homens são ou foram machistas em algum momento de suas vidas. Isso acontece porque os homens são educados dessa forma pela sociedade e para mudarem é necessário um processo de desconstrução que é demorado e pode levar uma vida toda.

Nem sabemos se é possível se livrar de todos esses resquícios de influência da sociedade, então mesmo homens que leem sobre feminismo e apoiam a causa podem ser machistas em alguns momentos.

Penso que assim como as teorias psicanalíticas, elas são mal interpretadas e criticadas por mexerem com questões que os homens não querem admitir para si mesmos.

De certa forma as duas teorias trabalham com questões inconscientes delicadas, quem gostaria de admitir para si mesmo que é preconceituoso? Ninguém, porque atualmente ser preconceituoso é uma coisa mal vista, mas querendo ou não todos temos algum grau de preconceito e estamos acostumados com privilégios que possuímos devido a alguma condição, ou característica nossa que é valorizada pela sociedade.

Sou homem, magro e branco do cabelo liso, logo tenho privilégios frente a outros grupos. É completamente impossível se livrar completamente desse mal, mas o primeiro passo é admitir que temos nossos privilégios e também podemos ser preconceituosos.

Ninguém melhor do que uma feminista para falar com mais propriedade desses conceitos.

Dentro dessa lógica podemos afirmar sim que Freud era machista, ou pelo menos foi durante parte de sua vida. Além disso, é possível perceber isso em algumas obras escritas por ele. Quando estabeleceu a teoria do Complexo de Édipo, ele escreveu apenas do ponto de vista dos meninos.

Depois Carl Gustav Jung, um de seus pupilos, formulou a teoria do Complexo de Electra, que é o ponto de vista das meninas. Freud aceitou essa teoria e a incorporou à Psicanálise, mas chamando de "Édipo feminimo".

Porém, Freud ser machista não invalida toda sua contribuição e genialidade. Infelizmente, por muitos anos e até atualmente o mundo da ciência é praticamente dominado por homens. Não podemos ignorar eventuais problemas em suas teorias, mas a existência deles não faz delas descartáveis.

A Psicanálise é machista?

Uma das teóricas psicanalistas mulheres.
Melanie Klein, uma das mais importantes teóricas psicanalistas mulheres.

Apesar de ter sido fundada por Freud, um homem, a Psicanálise hoje é praticamente dominada por mulheres. A maioria das pesquisadoras, psicoterapeutas/analistas e pacientes são mulheres. Aliás, a maioria das pessoas que acompanham meu blog e página são mulheres também, cerca de 95% (ou até mais) 😱😱😱.

Então se algum dia a Psicanálise foi machista, hoje ela não é mais já que a presença feminina é grande, atualmente não se trata de uma ciência de homens para homens. O fato de terem mulheres estudando, escrevendo e praticando a Psicanálise transforma e adapta as teorias.


Fase fálica do desenvolvimento psicossexual

Complexo de Electra
(Imagem retirada da internet)

A chamada "inveja do pênis" ocorre durante uma fase do desenvolvimento psicossexual das crianças que Freud nomeou de fase fálica, compreende o período entre os 3 aos 6 anos de idade. Nesse período ocorre o famoso Complexo de Édipo.

Eu já expliquei o que são as fases do desenvolvimento psicossexual em outro artigo, caso queria saber mais clique aqui. Nesse texto vou focar apenas na fase fálica para não me prolongar tanto e não ser redundante, ok?

Ela tem o nome de "fálica" porque gira em torno das descobertas das crianças sobre a presença ou ausência do pênis. Os meninos e meninas passam a ter a libido mais direcionada ao seu órgão genital, nos garotos o pênis e nas garotas a vagina e o clitóris e veem esses órgãos como a parte mais estimada do corpo.

A partir dessa fase o desejo sexual das crianças também passa finalmente a ser direcionado a outras pessoas, enquanto na oral e anal as atividades libidinais são autoeróticas, direcionadas a si mesmo. O desejo das crianças é direcionado aos seus progenitores, cuidadores ou pessoas que ocupem posições equivalentes a estas e, nessa altura que surge o Complexo de Édipo.


Atenção, adendos para evitar possíveis equívocos:
  • O Complexo de Édipo não é um desejo literal de ter relações sexuais com seus cuidadores/genitores: nessa idade as crianças sequer sabem o que é ato sexual, mas elas começam a sentir atração física que é principalmente direcionada aos adultos responsáveis por elas. No entanto, elas não compreendem ou tem consciência dessas sensações, nem sabem o que fazer com elas;
  • A criança ter esse tipo de desejo não significa que ela queira ou esteja pedindo para ser abusada: um adulto ter relações sexuais com uma criança nessa idade é abuso sexual e pedofilia e pode trazer consequências desastrosas para a saúde mental;
  • A relação edipiana não é uma relação romântica: ela é uma pulsão sexual e agressiva:
"'O menino está apaixonado pela mãe e quer afastar o pai; a menina, por sua vez, apaixonada pelo pai, quer afastar a mãe." Eis em algumas palavras o mais batido clichê da psicanálise, uma ilustração tradicional, ingênua e enfática do célebre drama amoroso: o complexo de Édipo. E, no entanto, nada mais enganador que está visão estática do complexo freudiano. Por quê? Porque o complexo de Édipo não é uma história de amor e ódio entre pais e filhos, é uma história de sexo, isto é, uma história de corpos que sentem prazer em se acariciar, se beijar e se morder, em se exibir e se olhar, em suma, corpos que sentem tanto prazer em se tocar quanto em se fazer mal. Não, Édipo nada tem a ver com sentimento e ternura, mas com corpo, desejo, fantasias e prazer. Provavelmente, pais e filhos amam-se ternamente e podem se odiar, mas no coração do amor e do ódio familiar, medra o desejo sexual." 
NASIO, Juan-David. Édipo: O complexo do qual nenhuma criança escapa. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007. pág 8. v. 1;

Angústia da castração X Fantasia de privação (inveja do pênis)

Complexo de Édipo
(Imagem retirada da internet)

Durante essa fase os meninos e meninas vivenciam fantasias bizarras denominadas: angústia da castração e fantasia de privação.

  • Angústia da castração (menino):

O menino ao descobrir que o corpo feminino não possui pênis passa a fantasiar, de forma inconsciente, que o pênis das mulheres foi removido e o dele também poderá ser. Antes disso, na cabeça do pequeno garoto, todos as pessoas, homens e mulheres, inclusive a sua mãe (se ele tiver uma), possuem. O pequeno órgão é a parte mais querida do corpo por ser a zona erógena mais rica em sensações:
(...) o órgão peniano torna-se a parte do corpo mais rica em sensações e impõe-se como a zona erógena dominante, uma vez que o prazer por ele proporcionado à criança torna-se referência principal de todos os outros prazeres corporais. Antes dessa idade, os locais de prazer eram a boca e, depois, o ânus e a atividade muscular - não esqueçamos que o prazer de andar, correr e agir prevalece em todos os bebês entre os dois e três anos -, ao passo que, com quatro, todo o prazer corporal, seja qual for o lugar excitado, repercute no nível de seu pequeno pênis sub a forma de um arrepio de prazer." 
NASIO, Juan-David. Édipo: O complexo do qual nenhuma criança escapa. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007. pág 21. v. 1;
Na cabeça dele: "nossa, quer dizer que essa parte do meu corpo tão querida e que me proporciona tanto prazer e descobertas pode ser removida?". Claro que isso tudo no Inconsciente do garoto, né? Não vai sair por aí perguntando para crianças de 4 anos se elas realmente pensam isso que provavelmente elas não vão te responder dessa forma 😂😂😂

Na relação edipiana o garoto deseja sua mãe e rivaliza com seu pai (no modelo clássico do Édipo, há variações possíveis). Ao descobrir que existem pessoas que não possuem pênis/falo, ele começa a fantasiar que pode ter seu precioso órgão removido e acredita que o seu pai rival que fará isso. Então o garoto precisa escolher entre o objeto de desejo (a mãe) ou seu precioso falo. Ele escolhe o órgão e se auto preservar, então desiste de possuir a mãe. Os pais são dessexualizados.
"A que leva à angústia de castração? Pois bem, é ela quem precipita o fim da crise edipiana. Com efeito, dilacerado entre suas fantasias de prazer e suas fantasias de angústia, dividido entre a alegria e o medo, o menino é finalmente tomado pelo medo. A angústia, mais forte que o prazer, dissuade a criança de prosseguir sua busca incestuosa e leva a desistir do objeto de seus desejos. Angustiada, a criança esquiva-se dos pais tomados como objetos sexuais para salvar seu precioso pênis-Falo, isto é, para proteger seu corpo." 
NASIO, Juan-David. Édipo: O complexo do qual nenhuma criança escapa. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007. pág 35. v. 1;  


  • Fantasia de privação/inveja do pênis (menina):
Assim como o menino tem estima pelo seu pênis, a menina tem os mesmos sentimentos para seus genitais, especialmente o clitóris. No entanto, ela descobre que o garoto possui pênis, algo que ela não tem e passa a duvidar das suas sensações, se sente privada.
"Ora, ocorrerá um acontecimento crucial que ofuscará o inocente e insolente orgulho da garotinha radiante por se sentir onipotente. Da mesma forma que o menino descobre, visualmente angustiado, a ausência de pênis no corpo feminino, a menina constata a diferença de aspecto entre seu sexo e do menino. A reação da menina é imediata; fica decepcionada por não tem o mesmo apêndice que o menino: "Ele tem alguma coisa que eu não tenho!" Até então fiava-se em suas sensações de poder vaginal e clitoriano, que confortavam em seu sentimento de onipotência. Agora que viu o pênis, duvida de suas sensações e julga que a fonte do poder não está nela, mas no corpo do outro, no sexo do menino." 
NASIO, Juan-David. Édipo: O complexo do qual nenhuma criança escapa. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007. pág 49. v. 1;
Como a menina não possui pênis/falo, ela não sofre a angústia da castração. Ela não tem nada a perder porque ela nunca teve para começo de conversa. Então se o menino abandona a relação edipiana rapidamente em prol do seu órgão querido, a menina não tem porque abandonar e fica mais tempo dentro dessa crise.

A mulher é um ser castrado e incompleto? Não

"O sexo de uma mulher não é de forma alguma a falta do que quer que seja! A mulher tem seu próprio sexo, e tem orgulho dele; quer se trate de sua vagina, de seus seios, de sua pele ou de todo seu corpo erógeno, a mulher é feliz por ser do jeito que é." 
NASIO, Juan-David. Édipo: O complexo do qual nenhuma criança escapa. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007. pág 61. v. 1;
Tanto a angústia da castração quanto a fantasia da privação e inveja do pênis/falo são fantasias infantis, ou seja, não representam a realidade de fato.
  • O pai não vai castrar o menino: que pai faria isso? É claro que existe de tudo nesse mundo 😱, mas falando geralmente, nenhum pai iria querer mutilar o seu filho, ainda mais por um motivo desses. A rivalidade entre o filho e o pai no Édipo só existe na cabeça do garoto;
  • O pênis das mulheres não foi removido, elas nunca tiveram um. As mulheres não são incompletas: na fase fálica as crianças não compreendem ainda as diferenças entre corpos do sexo masculino e feminino, não sabem que os pais são de gêneros diferentes (se forem um casal hétero). Na cabeça do menino, todo mundo tem pênis assim como ele porque ele ainda não viu o corpo nu de outras pessoas. O menino e menina ainda não compreendem totalmente sua identidade sexual e de gênero e também não sentem atração exclusiva por um dos gêneros. Então é nessa fase que as crianças descobrem boa parte dessas coisas e essas são algumas das fantasias que elas vivenciam. É óbvio que depois conforme elas vão crescendo elas aprendem o que são os órgãos reprodutivos de fato;
  • O poder, onipotência e completude do falo só existem na fantasia: o menino se enxerga poderoso e onipotente porque tem o falo, e a menina se sente privada por não ter. Na verdade, ele não é nenhuma dessas coisas e ela não é incompleta, nem foi privada. Essa é só a forma como as crianças se sentem nessa fase quando estão descobrindo essas coisas. Muitas feministas acreditam que a teoria psicanalítica seria misógina por ela colocar o falo como representante do poder e da completude, mas isso é só uma idealização fantasiosa dele..


O significado do falo



As teorias de Freud foram complementadas posteriormente por Jacques Lacan, um de seus sucessores e um dos principais teóricos psicanalistas. Lacan propôs uma diferenciação entre o "pênis" e o "falo". O falo não seria o órgão sexual, mas sim a idealização e a fantasia em cima dele. Às vezes Lacan utiliza o termo "falo real" ou "pênis imaginário" ou "pênis simbólico" o que pode causar confusão nas pessoas, mas é só uma questão de nomenclatura. O que precisamos entender é que existe a fantasia e a realidade.

Poder, completude e também vulnerabilidade/fragilidade. Os homens são covardes?

Na Psicanálise o homem é covarde comparado à mulher.
Cuidado frágil! (Imagem retirada do site Clipartmax)




"Comparado à mulher, o homem é visceralmente um covarde
Quanto mais o menino for amado pela mãe, mais se tornará um homem viril. E quanto mais orgulhoso for de sua potência, mais se preocupará em defendê-la, suscetível quanto à sua virilidade e ridiculamente sensível ao menor "dodói". Comparado à mulher, o homem é visceramente um covarde."
NASIO, Juan-David. Édipo: O complexo do qual nenhuma criança escapa. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007. pág 37. v. 1;
Se a gente for analisar a angústia da castração acompanha a maioria dos homens no decorrer de suas vidas, porque eles estão sempre tentando defender a própria masculinidade, ou seja, o seu falo. A virilidade enquanto está associada a potência também está a fragilidade.

O homem é derivado da mulher?

O feto primeiro se desenvolve como se fosse do sexo feminino durante a gestação?
(Imagem retirada do site Clipartmax)

Uma crítica frequente que vejo de feministas à teoria psicanalítica é que elas acreditam que Freud pregava que o sexo feminino é derivado do masculino já que a fase fálica gira em torno do falo.

Segundo elas isso contraria as descobertas científicas contemporâneas de que, na verdade, o homem que é derivado da mulher. Durante o início da gestação, o feto do sexo masculino é igual ao do feminino e depois que vai se diferenciando.

Por isso que pessoas do sexo masculino possuem mamilos também, os testículos seriam formados pelo que era para ser os lábios vaginais que se fundem e formam o saco escrotal. Não achei fonte dessa informação, mas lembro de ter visto isso em uma reportagem na Globo há alguns anos então acredito que seja real!


Essa confusão se dá porque essas pessoas não compreendem a teoria psicanalítica. Ela não diz que a mulher é derivada do homem, que ela é castrada e incompleta ou coisas do tipo, como já demonstrei lá em cima. Ela teoriza sobre as fantasias infantis que ocorrem durante as fases do desenvolvimento psicossexual. Não faz diferença quem veio primeiro, o homem ou a mulher, para a fantasia das crianças edipianas.

A Psicanálise é obcecada pelo falo? Não, sociedade é

Obelisco Ibirapuera
Obelisco do Ibirapuera em São Paulo. (Imagem retirada da internet)

Ela é uma teoria sobre a psique humana e a humanidade é falocêntrica e também é patriarcal. Logo isso vai se refletir no nosso desenvolvimento, na formação da nossa identidade de gênero e sexualidade. Muitas pessoas falam que o Freud era tarado porque ele estudava a sexualidade humana, sinceramente, ele só era uma pessoa corajosa para admitir que tanto ele quanto todos somos tarados lá no mais íntimo da nossa mente.

As teorias não são exatas, ou seja, elas podem se modificar conforme. Se vivêssemos em uma sociedade matriarcal toda essa relação com o falo seria completamente diferente, por exemplo.

Os homens falam em pênis o tempo inteiro, existem até fóruns no Reddit em que caras que se dizem héteros ficam mostrando os pênis uns para os outros, acredite 😂😂😂. Na comunidade LGBT+, os gays só sabem falar em pênis o dia inteiro e existem umas centenas (ou milhares, vai saber) de gírias para se referir a pênis, cada hora inventam uma nova.

Eu descobri esses dias que em alguns funks a palavra "pente" se refere a pênis 😳. Para mim, pente é de pentear o cabelo, né? 😂 Só que eu já ouvi uma música de funk proibidão que falava "é só pentada violenta" 😂😂😂

Por mais avanços que já tivemos com relação à diferença de direitos entre homens e mulheres, ainda vivemos em uma sociedade patriarcal e isso tem implicações na nossa psique e no nosso Inconsciente.


Conclusão

As pessoas costumam pensar que o complexo de Édipo seria algum transtorno mental, "Fulano tem complexo de Édipo", sendo que, na verdade, se trata de uma fase de desenvolvimento totalmente normal que todos passamos durante a infância. O mesmo tipo de equivoco ocorre quando falamos da inveja do pênis/falo, as pessoas pensam que é algo crônico que vai acompanhar as mulheres por toda a sua vida e não, é só uma fase do desenvolvimento psicossexual infantil.

Durante o Complexo de Édipo as crianças não sabem as diferenças corporais que existem entre o sexo biológico masculino e feminino, o menino não sabe que a mãe dele não possui pênis como ele, por exemplo. As diferenças entre os gêneros dos pais e da própria criança também ainda não são claros para ela e é durante essa fase em que ela faz essas descobertas.

A gente não nasce sabendo essas coisas, que homens cis tem pênis e mulheres cis não, sequer que homem é uma coisa e mulher é outra, tudo isso vamos aprendendo.

"Eu não lembro de ter passado por essas coisas, então não aconteceu comigo"
Mas após o fim da fase fálica o Superego emerge e a primeira tarefa dele é reprimir todas essas fantasias para o Inconsciente. Por isso não nos lembramos de nada. Na verdade, algumas pessoas ainda conseguem se lembrar de situações específicas em que podemos observar o Édipo acontecendo, mas, em geral, não se lembram mesmo.

Se gostou, comente e compartilhe! 😇


Psicanálise e misoginia: as mulheres tem inveja do pênis?
Salve no Pinterest!






Referências

  1. Gauchazh - As teorias continuam as mesmas, mas a psicanálise mudou muito no último século. Disponível em: <https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2010/08/as-teorias-continuam-as-mesmas-mas-a-psicanalise-mudou-muito-no-ultimo-seculo-3014995.html>. Acesso em 28 de Janeiro de 2019;
  2. Fronteiras do Pensamento - As primeiras mulheres psicanalistas. Disponível em: <https://www.fronteiras.com/artigos/as-primeiras-mulheres-psicanalistas>. Acesso em 28 de Janeiro de 2019;
  3. BRENNER, Charles "Noções básicas de psicanálise: Introdução a Psicologia Psicanalítica", 3ª edição. Rio de Janeiro, Imago; São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. Capítulo II, pág. 32-46;
  4. Psicoativo - O Universo da Psicologia - O Falo na Psicanálise de Freud e Lacan Explicado! Disponível em: <https://psicoativo.com/2017/10/o-falo-na-psicanalise-de-freud-e-lacan-explicado.html>. Acesso em 10 de Janeiro de 2019;
  5. FREUD, Sigmund "Freud (1901-1905) - três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros textos", 1ª edição, São Paulo, Companhia das Letras, 2016;
  6. NASIO, Juan-David. Édipo: O complexo do qual nenhuma criança escapa. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007. 160 p. v. 1.


Comentários