Somos todos bissexuais? Variações do Complexo de Édipo (Psicanálise)

O complexo de Édipo completo e a bissexualidade constitucional da infância na Psicanálise.


[A bissexualidade não é a única orientação sexual não-monossexual, mas nesse texto eu vou usar o termo 'bissexual' para facilitar o entendimento, ok?]

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O Complexo de Édipo é um das teorias mais famosas de Freud e um dos conceitos centrais na Psicanálise, no entanto, eu descobri recentemente que a maioria dos textos e artigos que sobre são incompletos porque ignoram algumas coisas que Freud propôs posteriormente em seu livro 'O Ego e o Id' de 1923 como o Édipo completo que estaria relacionado com a bissexualidade constitucional.

Tudo começou porque eu estava fazendo uma pesquisa para outro texto sobre Psicanálise que estou escrevendo (estou em dúvida sobre postar porque ainda não estou satisfeito com a qualidade dele).

Nessa pesquisa li vários artigos e textos sobre o Complexo de Édipo e a fase fálica do desenvolvimento psicossexual, que é o período da infância em que ele ocorre e então eu me deparei com o termo "Complexo de Édipo completo" que me deixou bastante curioso. Vou comentar sobre ele nesse texto 😉😉😉

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Fases do desenvolvimento psicossexual das crianças

Antes de explicar sobre o Complexo de Édipo eu preciso comentar brevemente as teorias de Freud sobre a sexualidade infantil. Ele propôs que as crianças possuem sexualidade, mas está é bem diferente da dos adultos. Basicamente consiste nas descobertas das crianças sobre o prazer do seu próprio corpo.

As fases do desenvolvimento psicossexual são: oral, anal, fálica, latência e genital. Essas fases não são sempre bem demarcadas, na verdade, algumas vezes elas se sobrepõe e os períodos em que Freud estipulou que elas ocorrem são apenas estimativas. Segue uma breve explicação de cada:
  • Oral: a energia libidinal da criança está concentrada na boca. Essa fase está bastante relacionada com o período de amamentação. Nessa época as crianças costumam colocar tudo na boca. Já viu aqueles bebês que colocam qualquer coisa na boca? Brinquedo, pedra, tudo? 😂😂😂 Então… Estima-se que essa fase ocorre entre 0 e 2 anos;
Fase oral do desenvolvimento psicossexual
(Imagem retirada da internet)
  • Anal: a criança aprende a controlar os seus próprios esfincteres: ânus e uretra. Então ela passa a sentir prazer em reter ou expelir suas fezes e a urina. Acontece entre os 2 aos 4 anos;
Fases psicossexuais - Psicanálise
(Imagem retirada da internet)
  • Fálica: a energia libidinal se volta para os órgãos genitais, mas ainda é diferente da sexualidade dos adultos. Freud acreditava que nessa fase a atenção das crianças, meninos e meninas está voltada para o pênis (a presença ou ausência dele) e também sobre o clítoris. Nessa época que ocorre o famoso Complexo de Édipo. Estima-se que ocorro entre os 4 e 5 anos;
Fase fálica do desenvolvimento psicossexual - Psicanálise
(Imagem retirada da internet)
  • Latência: com o desfecho do Complexo de Édipo o Ego e o Superego emergem, as forças libidinais ficam menos ativas. Eu não vou explicar novamente o que é o Id, Ego e Superego porque eu já expliquei isso em outros textos aqui no blog e na página. Na verdade, toda vez que falo sobre Freud explico isso de novo 😂😂😂. Vou só deixar alguns vídeos do canal didatics no YouTube no YouTube que são bem completos sobre o assunto. Esse canal é muito bom e todos os vídeos dele possuem referências e fontes e eles falam de outras abordagens além da Psicanálise e tem conteúdo até sobre Filosofia. A fase de latência costuma durar dos 5 anos até o início da puberdade;

Entenda o que é Consciente, Pré-Consciente e Inconsciente.


Entenda o que é Id, Ego e Superego.



O Complexo de Édipo - Explicação genérica

Fase fálica do desenvolvimento psicossexual - Psicanálise
(Imagem retirada da internet)

[Atenção: o Complexo de Édipo não é um transtorno mental ou doença, como algumas pessoas que não conhecem a teoria muitas vezes acreditam. Se trata apenas de uma fase do desenvolvimento sexual e psicológico das crianças, todos passamos por esse complexo.]


Por volta dos 4 ou 5 anos as crianças vivenciam uma dramatização psíquica e fantasiosa denominada na Psicanálise como Complexo de Édipo. Se você tem algum conhecimento básico sobre essa teoria deve saber que genericamente ele trata da triangulação entre os pais e o filho(a), a criança começa a sentir desejo pelo cuidador do sexo oposto e se identificar e rivalizar com o do mesmo gênero.

Esse complexo é um conceito chave na Psicanálise e por meio dele são definidas muitas coisas na psique da criança, como o desenvolvimento do Superego (deixei a explicação sobre o que é isso logo mais acima no texto, nesses vídeos do didatics). Uma das primeiras tarefas do Superego é reprimir todas as fantasias edípicas para o Inconsciente.

Uma coisa que sempre me incomodava quando eu lia sobre esse assunto é que esse conflito sempre é tratado de uma forma heteronormativa. Sempre falam: "ah, o complexo de édipo do menino consiste no desejo dele pela mãe e na identificação e rivalidade com o pai" e "o complexo de édipo na menina consiste no desejo pelo pai e na identificação e rivalidade com a mãe". A definição é sempre "o desejo pelo cuidador do sexo oposto".

Na verdade, isso é uma coisa que incomoda sobre a ciência geralmente, as teorias sempre partem de um posto de vista hétero. Por exemplo, quando fazem pesquisas sobre o que faz os homens serem mais atraentes os pesquisadores sempre colocam a ótica das mulheres e as características que elas julgam interessantes sempre remetem à reprodução ou à prole.

Porém, homens também podem se atrair por outros homens e no caso de relações sexuais entre dois rapazes cisgênero não há reprodução, então provavelmente o que faz um homem ser atraente para outro ou uma mulher para outra muito provavelmente não são características que remetem à reprodução, né?

Eu não sou hétero, atualmente me considero bissexual, então será que crianças bissexuais ou homossexuais não podem, na verdade, desejar o progenitor do mesmo gênero no conflito edípico? Sinto como se esses artigos ignorassem que a homossexualidade existe e automaticamente tratam a heterossexualidade como norma, como se as crianças já nascessem heterossexuais e a homossexualidade fosse algo que viesse somente depois. Eles não falam abertamente desse jeito, mas essa é a impressão que eles causam em mim.

Então eu sentia como se a teoria do Complexo de Édipo e a maioria das teorias sobre a sexualidade humana ignorasse a minha existência.

Sentimentos de desejo, identificação e rivalidade podem ser direcionados aos dois pais (ou figuras que ocupam a mesma função)

Complexo de Édipo pelos pais do mesmo sexo.
(Imagem retirada da internet)

Até que eu me deparei com um texto de Freud para o seu livro 'O Ego e o Id' de 1923 que muda completamente a minha visão sobre esse assunto. Ele diz nesses textos que existe o Complexo de Édipo completo que consiste em uma combinação do Édipo positivo (a criança desejar o progenitor/cuidador do gênero oposto) com o Édipo negativo (a criança desejar o progenitor/cuidador do mesmo gênero).

Isso significa que a criança pode sim se sentir atraída pelos dois pais/cuidadores em algum grau e não somente o pai/cuidador do gênero oposto! Além disso, ela não se identifica e rivaliza apenas com o progenitor/cuidador do mesmo gênero que o dela, ela também pode ter esse sentimento com o do gênero oposto 😲😲😲.

Os meninos também possuem um lado feminino que pode se identificar com a mãe e as meninas um masculino que se identifica com o pai. É claro que feminilidade e masculinidade são conceitos construídos socialmente, mas penso que deu para entender que a identificação e rivalidade das crianças não necessariamente ocorre exclusivamente pelo cuidador do mesmo gênero, né?

Freud também deixa claro que o Édipo completo não é menos comum que Édipo simples, ou seja, a maioria ou pelo menos uma grande parcela das crianças vivencia o Édipo completo!


“Todo esse assunto [da identificação sexual] é, contudo, tão complicado que será necessário abordá-lo pormenorizadamente. A dificuldade do problema se deve a dois fatores: o caráter triangular da situação edipiana e a bissexualidade constitucional de cada indivíduo. […].” (p. 44)
“Pareceria, portanto, que em ambos os sexos a força relativa das disposições sexuais masculina e feminina é o que determina se o desfecho da situação edipiana será uma identificação com o pai ou com a mãe. Esta é uma das maneiras pelas quais a bissexualidade é responsável pelas vicissitudes subsequentes do complexo de Édipo.
A outra é ainda mais importante, pois fica-se com a impressão de que de modo algum o complexo de Édipo simples é a sua forma mais comum, mas representa antes uma simplificação ou esquematização que é, sem dúvida, frequentemente justificada para fins práticos. Um estudo mais aprofundado geralmente revela o complexo de Édipo mais completo, o qual é dúplice, positivo e negativo [no sentido de um lado e outro, opostos, inversos; não de certo e errado], e devido à bissexualidade originalmente presente na criança.
Isto equivale a dizer que um menino não tem simplesmente uma atitude ambivalente para com o pai e uma escolha objetal afetuosa pela mãe, mas que, ao mesmo tempo, também se comporta como uma menina e apresenta uma atitude afetuosa feminina para com o pai e um ciúme e uma hostilidade correspondentes em relação à mãe. […].” (p. 45-46)
“Em minha opinião, é aconselhável, em geral, e muito especialmente no que concerne aos neuróticos, presumir a existência do complexo de Édipo completo. A experiência analítica demonstra então que, num certo número de casos, um ou outros dos constituintes desaparece, exceto por traços mal distinguíveis; o resultado, então, é uma série com o complexo de Édipo positivo normal numa extremidade e o negativo invertido na outra, enquanto que os seus membros intermediários exibem a forma completa, com um ou outro dos seus dois componentes preponderando.
Na dissolução do complexo de Édipo, as quatro tendências em que ele consiste agrupar-se-ão de maneira a produzir uma identificação paterna e uma identificação materna. A identificação paterna preservará a relação de objeto com a mãe, que pertencia ao complexo positivo, e, ao mesmo tempo, substituirá a relação de objeto com o pai, que pertencia ao complexo invertido; o mesmo será verdade, mutatis mutandis, quanto à identificação materna.
A intensidade relativa das duas identificações em qualquer indivíduo refletirá a preponderância nele de uma ou outra das duas disposições sexuais.” (p. 46)
“‘O amplo resultado geral da fase sexual dominada pelo complexo de Édipo pode, portanto, ser tomada como sendo a formação de um precipitado no ego, consistente dessas duas identificações unidas uma com a outra de alguma maneira’.” (p. 46)
FREUD, Sigmund "O Ego e o Id", 1ª edição, Rio de Janeiro, Imago, 1996. Pág. 44-46; 
Chocante, não? Então finalmente senti que essa teoria psicanalítica me engloba. Vou falar sobre isso mais embaixo quando falo sobre o meu conflito edipiano. 

A bissexualidade na infância

Bissexualidade constitucional da infância - Psicanálise
(Imagem retirada da internet)

Para a Psicanálise quando somos crianças não possuímos atração sexual exclusiva por um dos gêneros, ao contrário do que muitas pessoas pensam, só conforme vamos crescendo que podemos desenvolver uma orientação monossexual ou permanecer bissexuais mesmo. O que é isso? Monossexuais são pessoas que se sentem atraídas apenas por um gênero, ou seja, heterossexuais e homossexuais.

O conceito de bissexualidade na Psicanálise difere um pouco do contemporâneo, atualmente a definição está ligada exclusivamente à atração sexual. Na teoria psicanalítica a bissexualidade também se refere à identificação de gênero.

Alguns teóricos como Alfred Kinsey acreditam que a sexualidade humana, na verdade, é um degradê, então mesmo sendo predominantemente heterossexuais, muitas pessoas podem ter tendências homossexuais e vice-versa.

Uma das minhas séries preferidas que ainda pretendo escrever uma resenha é A Vida de Erica (Being Erica, título original). Falei um pouco sobre ela no texto Amar é suficiente? Quando às vezes precisamos escolher não continuar mesmo amando (Reflexão).

A possibilidade de uma pessoa predominantemente heterossexual se sentir atraída por alguém do mesmo gênero é abordada em um episódio. Nele, Cassidy, uma amiga lésbica de Erica, a protagonista, se sente atraída por ela e surge uma tensão sexual entre às duas, no entanto, Erica se vê como heterossexual e se atraiu por homens a maior parte da vida.


A Homossexualidade não é uma doença e não precisa de tratamento

Freud não considerava a homossexualidade como uma doença ou patologia que necessite algum tratamento de "reorientação sexual". Em 1935 ele escreveu uma carta em resposta a uma mãe que o procurava para "curar" a homossexualidade do seu filho. Confira a carta na íntegra:


A heterossexualidade também pode ser problematizada

Além disso, em 'Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade' de 1905, Freud diz que a heterossexualidade também é passível de ser problematizada:
"[Nota acrescentada em 1915: A investigação psicanalítica se opõe decididamente à tentativa de separar os homossexuais das outras pessoas, como um grupo especial de seres humanos. Estudando outras excitações sexuais além daquelas manifestadas abertamente, ela sabe que todas as pessoas são capazes de uma escolha homossexual de objeto e que também a fizeram no inconsciente. De fato, ligações afetivas libidinosas com pessoas do mesmo sexo não têm, como fatores da vida psíquica normal, papel menor – e, como motores do adoecimento, têm papel maior – do que aquelas que dizem respeito a pessoas do outro sexo. Para a psicanálise, isto sim, a escolha objetal independente do sexo do objeto, a possibilidade de dispor livremente do objeto masculino e feminino, tal como se observa na infância, em estados primitivos e épocas antigas, parece ser uma atitude original, a partir da qual se desenvolvem, mediante restrição por um lado ou por outro, tanto o tipo normal como o invertido. Na concepção da psicanálise, portanto, também o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher é um problema que requer explicação, não é algo evidente em si, baseado numa atração fundamentalmente química." - FREUD, Sigmund "Freud (1901-1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, análise fragmentária de uma histeria ("O caso Dora" ) e outros textos: Obras completas, Volume 6", 1ª edição. São Paulo, Companhia das Letras, 2016. I. AS ABERRAÇÕES SEXUAIS, pág. 34-35.
[Atenção: quando Freud diz que isso é um "problema" para a Psicanálise ele quer dizer no sentido de ser algo que deve ser estudado e debatido, não tem nada a ver com a conotação negativa do termo. Só adicionei essa observação para evitar possíveis polêmicas e mal entendidos.]

Tendências homossexuais que observei em outros garotos do meu convívio durante a puberdade

Na minha infância e adolescência eu pude observar comportamentos homossexuais generalizados partindo da maioria dos garotos do meu convívio 😱. Quando eu tinha cerca de 12 anos os meninos da minha escola costumavam ficar brincando de se esfregar simulando sexo.

Um dos garotos ficava de quatro enquanto o outro ficava roçando nele (com roupas, claro). Também tinham alguns que em festas dançavam funk com passos eróticos.

Lembro como se não fosse ontem que um dos colegas de uma ONG que eu estudava ficava se esfregando em outro garoto e dizendo que iria "comer" ele, ele chegou a falar: "vou vir para cá sem cueca para poder me esfregar no Fulano" 😱😱😱.

Eles ficavam pegando no órgão genital uns dos outros ou passando a mão no bumbum…

Hoje em dia a maioria dessas pessoas tem uma vida heterossexual. Será que dá para nós afirmarmos que todos eles, na verdade, são gays enrustidos? Não necessariamente…

O que acontece é que os interesses homossexuais podem ter existido neles em algum momento da vida, mesmo que eles tenham desenvolvido uma heterossexualidade com o passar dos anos, assim como desejos heterossexuais podem ter existido em pessoas que hoje se consideram homo. Aliás, podem ter existido ou podem vir a existir!

O Complexo de Édipo em diferentes configurações de família

Complexo de Édipo em diferentes configurações de família.
(Imagem retirada da internet)

O conflito edípico não ocorre apenas em famílias tradicionais nucleares compostas de pai, mãe e filhos, ele também acontece em famílias de casais homoafetivos, em agregamentos familiares ou em monoparentais (compostas por mães ou pais solo).

Isso porque estamos falando em "função materna" e "função paterna" e não em pai e mãe literalmente, por exemplo, dentro de um casal homoafetivo cada um dos pais ocupa uma dessas funções.

Essas funções podem até mesmo não serem ocupadas por uma pessoa física, em uma família composta por um filho e uma mãe solo, ela pode ocupar a função materna, enquanto seu trabalho talvez ocupe a paterna se o filho sentir que está disputando a atenção dela por ele.

São vários os desenvolvimentos possíveis, essa teoria está em constantes transformações para se encaixar melhor nas configurações de família mais contemporâneas, então existem vários artigos científicos sobre como ocorre o conflito do Édipo nesses contextos.

O meu Édipo

Complexo de Édipo - triangulação
(Imagem retirada da internet)

Faço psicoterapia de orientação psicanalítica há cerca de 3 anos e em algumas sessões e lá já abordamos conflitos edipianos, que eu mesmo trouxe.

Na época eu não tinha quase nenhum conhecimento em Psicologia ou Psicanálise ainda, mas já tinha ouvido falar do Complexo de Édipo. Cogitei que talvez parte dos meus problemas pudessem estar relacionados com esse conflito infantil e inicialmente levantei a hipótese de que quando eu era criança a minha relação edípica havia sido com meu pai e fomos elaborando isso.

Por curiosidade e também para poder elaborar melhor essa questão, comecei a ler sobre o assunto. Cheguei a comprar um livro chamado Édipo: o complexo no qual nenhuma criança escapa de J.-D. Nasio que é bem interessante para quem quer entender mais a importância dessa fase e ele chega a mencionar as variações possíveis, mas de forma bem breve e na introdução. Ainda percebo que ele sempre parte de uma ótica muito heteronormativa, fala: "Após o Édipo a menina dessexualiza o pai e então pode se relacionar com outros homens enquanto adulta", mas se ela se atrair por mulheres? De qualquer forma recomendo esse livro 😉.

Então eu pensava: "nossa, mas esses artigos todos sempre falam que o desejo da criança está voltado para o cuidador do gênero oposto, então a minha interpretação do meu conflito edípico está errada?". Também cogitei a possibilidade de os artigos estarem incompletos ou a teoria do Complexo de Édipo toda estar incompleta por aparentemente não contemplar a homossexualidade.

Grifei esse termo justamente porque foi uma impressão minha, ao pesquisar mais a fundo eu descobri que, na verdade, a teoria me contempla sim.

Então no decorrer da psicoterapia fui percebendo que a minha relação com o meu pai também está relacionado com a angústia da castração, ou seja, eu me identificava e rivalizava com ele. Se eu me identificava com meu pai, concluímos que eu desejava a minha mãe? Para vocês entenderem: o menino deseja a mãe e ele se identifica com o pai, porém, ele desiste da disputa por causa da angústia da castração em que ele fantasia que o pai pode castrá-lo. Foi então que fui percebendo que muito provavelmente tive uma relação edípica com a minha mãe sim.

De qualquer forma eu não sentia que esses textos que eu lia contemplavam o meu caso porque eu acreditava sim que em algum momento também aconteceu o contrário 😱😱😱.

A luz no fim do túnel foi quando eu descobri o Édipo completo e acredito que vivenciei um. Tive sentimentos de desejo e identificação por ambos os meus pais, mas ainda preciso de mais terapia para chegar a conclusões melhores.

O Édipo não é romântico, ele é uma pulsão sexual e agressiva

NASIO, Juan-David. Édipo: O complexo do qual nenhuma criança escapa. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007. 160 p. v. 1.


Quando eu estava lendo esse livro de J.-D. Nasio (do trecho acima), eu imediatamente lembrei de alguns episódios da minha infância, principalmente quando ele fala que o Édipo não é romântico, ele é uma pulsão sexual, um desejo de possuir, ser possuído e até mesmo de destruir.

Quando eu era bem pequeno tinha uma tia minha que sempre me dava presentes e me levava no cinema. Meus pais não tinham condições financeiras de me dar presentes de aniversário, ou dia das crianças, natal, etc, então era ela quem me dava de vez em quando. Essa minha tia é muito bonita, principalmente naquela época em que ela era mais jovem, ela tinha um corpão bem sarado.

Eu era um menino de uns 4 ou 5 anos e eu não tinha a menor noção do que era sexo e sexualidade, porém, eu sentia alguma coisa quando eu olhava para o corpo dela.

Então um dia ela me levou em um SESC que ficava lá perto do bairro que a gente morava e nele tinha um lago (ou lagoa, não sei a diferença 😂😂😂). Minha tia se sentou em cima de um murinho que tinha em volta do lago e tive uma ideia maluca de empurrar ela para que ela caísse nele sem que ela percebesse. É óbvio que ela notou e disse: "Rapha, você está tentando me derrubar no lago?" e começou a dar risadas, fiquei sem saber onde esconder a cara 👀. De onde essa minha vontade surgiu? Não faço a menor ideia…

Eu penso que isso é um claro exemplo do Édipo funcionando: uma pulsão sexual e também agressiva, enquanto olho para o corpo dela e sinto algo, quero jogar ela no lago? 😂😂😂
"Nossa, mas você falou de desejo pelo pai, depois desejo pela mãe e agora desejo por uma tia?"
Essa noção de que a criança deseja apenas o pai do sexo oposto é uma forma redutiva de analisar a teoria. A criança pode sentir algum desejo pelas pessoas responsáveis por cuidar dela, geralmente, sendo pais biológicos, adotivos, tio, tia, avó, entre outros. Eu tinha uma proximidade muito grande com essa minha tia nessa época. Além disso, a criança também pode ter desejo por irmãos, irmãs, primos e por aí vai.

Lembro que nessa época quando a minha tia estava fora eu gostava de fazer desenhos e cartinhas para ela, eu pegava os papeis que ela deixava na estante, tipo contas e boletos, e saia escrevendo em cima mesmo, pintando. Lembro que tinha umas fitas coloridas bem bonitas que eu usava para decorar. Vocês pensam que ela ficava brava?

Não, ela adorava, ficava muito feliz! Nessa época ela morava com a minha avó e às vezes eu dormia na casa delas quando a minha mãe tinha crises (minha mãe também sofre com bipolaridade), é claro que na época eu não sabia que era por causa disso. Pensar essas coisas me faz sentir saudades da minha avó, ela faleceu tem um tempo 😰.

Suposição: por que a maioria dos artigos e textos sobre Complexo de Édipo ignoram essas propostas por Freud sobre o Édipo completo e que as crianças também podem desejar os pais do mesmo sexo?

A heteronormatividade está no inconsciente da população.
(Imagem retirada da internet)

Freud propôs o Édipo completo em seu livro 'O Ego e o Id' de 1923 que é um dos últimos livros das obras completas, na coleção da editora Companhia das Letras ele está contido no Volume 16 que é o penúltimo.

Logo, essa é uma visão mais madura e atualizada da teoria e faz mais sentido que as pessoas deem uma importância maior para essas conclusões do que para as anteriores que ele havia feito a respeito do tema.

Mas, vivemos em uma sociedade conservadora e heteronormativa, admitir que as crianças desejam seus pais do gênero oposto durante uma fase do seu desenvolvimento já uma coisa que gera resistência, imagina engolir que as também desejam os do mesmo sexo?

Imagina admitir que enquanto crianças, somos todos bissexuais, ou que mesmo sendo predominantemente heterossexuais, ou homossexuais, em algum momento de nossas vidas, podemos sentir atração pelo outro gênero?

Isso é uma interpretação minha, não é nada científico, mas dentro das lógicas das teorias psicanalíticas eu penso que faz todo o sentido. 😮

Temos que lembrar que a humanidade nem sempre foi heteronormativa. Em diversas culturas antigas a homossexualidade era aceita, valorizada e praticada em larga escala.

Deixe seu comentário me falando o que você achou e qual a sua opinião a respeito!


Chico Bento seria bissexual?
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Referências

  1. BRENNER, Charles "Noções básicas de psicanálise: Introdução a Psicologia Psicanalítica", 3ª edição. Rio de Janeiro, Imago; São Paulo, Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. Capítulo II, pág. 32-46;
  2. Psicoativo - O Universo da Psicologia - O Falo na Psicanálise de Freud e Lacan Explicado! Disponível em: <https://psicoativo.com/2017/10/o-falo-na-psicanalise-de-freud-e-lacan-explicado.html>. Acesso em 10 de Janeiro de 2019;
  3. FREUD, Sigmund "O Ego e o Id", 1ª edição, Rio de Janeiro, Imago, 1996. Pág. 44-46;
  4. PEREIRA, Fabiana; MARQUES, Luciana; SPERONI, Thomas. UM ESTUDO SOBRE A NOÇÃO DE BISSEXUALIDADE EM FREUD. 1ª. 2012. Disponível em: <https://www.academia.edu/23745474/Um_estudo_sobre_a_noção_de_bissexualidade_em_Freud>. Acesso em 10 de Janeiro de 2019;
  5. Kinsey Institute - The Kinsey Scale. Disponível em: <https://www.kinseyinstitute.org/research/publications/kinsey-scale.php>. Acesso em 10 de Janeiro de 2019;
  6. FREUD, Sigmund "Freud (1901-1905) - três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros textos", 1ª edição, São Paulo, Companhia das Letras, 2016;
  7. NASIO, Juan-David. Édipo: O complexo do qual nenhuma criança escapa. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2007. 160 p. v. 1;
  8. Psicologado - Complexo de Édipo e as Novas Configurações Familiares. Disponível em: <https://psicologado.com.br/abordagens/psicanalise/complexo-de-edipo-e-as-novas-configuracoes-familiares>. Acesso em 10 de Janeiro de 2019.



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