'Eletrochoque'? Mitos sobre a eletroconvulsoterapia (ECT)

Entenda os mitos sobre a eletroconvulsoterapia.
(Imagem retirada da internet)

Surgiu uma polêmica recentemente porque o Mistério da Saúde emitiu um documento autorizando a utilização de eletroconvulsoterapia (ECT) no SUS, tratamento que antigamente era chamado de "eletrochoque", além de também permitir a internação de crianças e adolescentes em hospitais psiquiátricos.

A maior parte das polêmicas a cerca desse tema vem de pessoas que não tem base suficiente para opinar, então resolvi aproveitar o pouco da influência que tenho para esclarecer alguns equívocos.


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O tratamento atual nada tem a ver com o antigo eletrochoque

Polêmica! Ministério da Saúde dá aval para a utilização de eletrochoque
Segunda temporada de American Horro Story, Asylum, se passa em um manicômico católico antigo.

O eletrochoque praticado nos antigos manicômios era completamente diferente, não haviam estudos suficientes sobre a sua eficácia, os critérios para definir a carga elétrica adequada eram completamente nebulosos. Os pacientes não eram anestesiados e na maioria das vezes o procedimento era utilizado meramente como uma forma de castigo e tortura piorando cada vez mais o quadro dos doentes.

Já a eletroconvulsoterapia atual é indolor e rápida, praticada com o paciente em anestesia. A eficácia é comprovada por várias pesquisas e a quantidade de efeitos colaterais e contraindicações é infinitamente menor que a dos medicamentos, porém, como se trata de um procedimento muito mais caro, ele é mais indicado para casos de pessoas que não respondem bem às drogas.


Para se ter uma noção, o valor de uma sessão de ECT pode custar até R$ 1.000,00 e o tratamento é feito em várias sessões. Nem todas as pessoas têm esse dinheiro, não é? Não seria legal se todos pudessem ter acesso a esses tratamentos?


 
Dra. Maria Fernanda Caliani explica o que é a ECT (recomendo muito o canal dela)

[Para quem tiver curiosidade, no final do artigo tem uma série de pesquisas científicas sobre a eficácia e segurança da ECT]

Internação não necessariamente é uma coisa ruim

Casal se conhece em um hospital psiquiátrico
Hospital psiquiátrico no filme Tocados pelo Fogo/Touched with Fire (2015) que trata de Transtorno Bipolar e foi inspirado em um livro de mesmo nome. No entanto, o livro não é um romance, é técnico, mas que serviu de inspiração para o longa por investigar a relação de transtornos de humor com a arte.

A segunda polêmica é sobre a internação de crianças e adolescentes. Temos que ter em mente que internação não necessariamente é uma coisa ruim, muitas vezes ela é boa e extremamente necessária.

Problemas psiquiátricos são tão importantes quanto físicos, às vezes não precisamos ser internados quanto estamos doentes fisicamente? O mesmo se aplica à condição mental, às vezes estamos tão mal que precisamos de cuidados especiais que só podem ser fornecidos em um hospital psiquiátrico.

O estigma em cima das internações vem dos antigos manicômios em que as pessoas com transtornos mentais viviam enclausuradas e vítimas de "tratamentos" desumanos. Hoje em dia os hospitais psiquiátricos não são mais assim, as internações não possuem mais caráter asilar, o doente não vive mais enclausurado, ele é internado apenas em momentos de crise muito intensas que possam comprometer a sua integridade ou a das pessoas à sua volta. Os tratamentos visam sua reintegração junto à sociedade, enquanto os antigos manicômios serviam apenas como depósitos de pessoas, "lixo humano".


Alguns hospitais psiquiátricos mais modernos, como o retratado no filme Tocados pelo Fogo (2015), da foto acima, realizam atividades artísticas, psicoterapia em grupo e várias outras tarefas terapêuticas muito positivas.

Infelizmente, ainda existem manicômios no Brasil, porém, eles estão diminuindo cada vez mais e a maioria dos hospitais psiquiátricos não é mais assim.

Então as pessoas verem como um absurdo a possibilidade de internação de crianças e adolescente indiretamente demonstra como, na verdade, a nossa sociedade não leva a sério a possível gravidade de quadros de transtornos mentais.



Dra. Maria Fernanda Caliani explicando como a internação psiquiátrica ocorre atualmente, quando ela é indicada e, porque é necessária às vezes.


Não é só o passado da Psiquiatria que é obscuro, mas sim o da Medicina como um todo

Sangria.
Sangria era um tratamento que consistia em remover uma grande quantidade de sangue por uma incisão no braço. Naquela época acreditava-se que algumas doenças eram causadas por desequilíbrios nos fluidos corporais, porém, isso foi comprovado falso e esse tratamento foi abolido porque além de ineficaz muitas vezes agravava o quadro dos pacientes podendo levar a óbito. (Imagem retirada da internet)

Não é porque a medicina já foi muito desumana no passado que hoje você vai deixar de tomar seu remédio antibiótico ou se internar em um hospital caso você tenha câncer, ou alguma condição de saúde mais grave, não é?

O mesmo deveria se aplicar à Psiquiatria. É claro que devemos sempre protestar e combater alguns absurdos que ainda são praticados como o excesso de medicamentos, possíveis retrocessos, mas a utilização da eletroconvulsoterapia (ECT), o 'eletrochoque', da forma que é feita hoje em dia é muito benéfica. Essa polêmica só existe porque as pessoas não se informam (isso incluí muitos jornalistas, infelizmente).

A mesma coisa sobre internação, as pessoas pensam que é algo ruim como é nos filmes e séries de terror. Porque de fato as internações em hospitais psiquiátricos eram tenebrosas, mas hoje não é mais assim.

Impedir que uma pessoa que precisa da ECT ou de internação tenha acesso a isso é que é uma coisa desumana!

Muitos procedimentos médicos eram praticados de forma desumana antigamente, sem anestesia, por exemplo, mas hoje foram revisados e refinados. É o caso da ECT.

Compartilhe com seus amigos e ajude a combater a desinformação! Deixe seu comentário 😇😇😇


'Eletrochoque'? Mitos sobre a eletroconvulsoterapia (ECT)
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Referências:

  1. The Journal Of ECT - Efficacy of ECT in Depression: A Meta-Analytic Review. Disponível em: <https://journals.lww.com/ectjournal/Abstract/2004/03000/Efficacy_of_ECT_in_Depression__A_Meta_Analytic.4.aspx?fbclid=IwAR0jjzUVIKDrHJApT4pOVa8Wq25cnYMmaFr3ZnX-iKmA8YqignpqkTrBI9A>. Acesso em 10 de Fevereiro de 2019;
  2. ScienceDirect - Indications for electroconvulsive treatment in schizophrenia: A systematic review. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0920996413000972?fbclid=IwAR1YbPLLt-yBbS98aist1W1VKDDwsfc_YDEOI6O7Lu5ElYrr3w5OG24QYtY>. Acesso em 10 de Fevereiro de 2019;
  3. Wiley Online Library - Electroconvulsive therapy is equally effective in unipolar and bipolar depression. Disponível em: <https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/j.1600-0447.2009.01493.x?fbclid=IwAR0fpWabrV4VwhJQ7bVsRxMboP0INTDYOcjb1cHiUJo9yKz--PQc-wHWlJY&>. Acesso em 10 de Fevereiro de 2019;
  4. American Psychological Association - Efficacy and safety of electroconvulsive therapy in depressive disorders: A systematic review and meta-analysis. Disponível em: <https://psycnet.apa.org/record/2003-01982-001?fbclid=IwAR2LrZEneUbXGckjSw14bo0zEC5WhxxpGJyPHI--Hn_UUDJYr384Q9RBg7Q>. Acesso em 10 de Fevereiro de 2019;
  5. ScienceDirect - Significantly improved neurocognitive function in major depressive disorders 6 weeks after ECT. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S016503271531288X?fbclid=IwAR18zr8bquPM6Fw9C0K9ZAzyAKHHVFnUy2b8CpH_3hh8xR5577tl787DzLQ>. Acesso em 10 de Fevereiro de 2019;
  6. ScienceDirect - ‘Side effects’ of ECT are mainly depressive phenomena and are independent of age. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0165032700003141?fbclid=IwAR2R53bTehWg-Ac_64i8Yu8tTmEZIYEBx5tkZgOvPJhhEk3wh222UKCbfwk>. Acesso em 10 de Fevereiro de 2019;
  7. BRAIN STIMULATION - Is there evidence that electric parameters and electrode placement affect the cognitive side effects of ECT in patients with schizophrenia and schizoaffective disorder? A systematic review. Disponível em: <https://www.brainstimjrnl.com/article/S1935-861X(18)30945-8/fulltext?fbclid=IwAR1LHfMsn40IrLS7XQmfa61EgGDSIPyoJcS_7VGus3OyYJfYavzYPcatU2I>. Acesso em 10 de Fevereiro de 2019;
  8. Neuropsychiatry (London) - Patient Reported Experience of Electroconvulsive Therapy (ECT). Disponível em: <http://www.jneuropsychiatry.org/peer-review/patient-reported-experience-of-electro-convulsive-therapy-ectre.pdf?fbclid=IwAR0VLcM6KD9c5WXqZ2uK0nrwGjo3-KdSPB0GVbHYOj-GWBZs-9BtQYvuopU>. Acesso em 10 de Fevereiro de 2019.



Comentários

  1. Olaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
    Vamos começar pelas coisas boas deste artigo, só para não me irritar?
    -Agrada-me bastante que uses bibliografia no teu trabalho;
    -Gostei que tivesses usado a imagem dos Simpsons e The American Horror Story, a minha série favorita e o exemplo da mesma.
    Vamos aos pontos que dão vontade de ir para a Terra plana, porque a esférica tem probleminha?
    -No caso de TSHS, como disseste, não havia conhecimentos e esse capítulo da série foi inspirada num manicómio de mil novecentos e troca o passo. O conhecimento era menor. Hoje sabemos que foi um erro e as consequências. Estão a regredir para quê?!
    -Como referiste, a saúde mental merece o mesmo apoio da física, logo o que eles estão a tentar implantar, não faz sentido.
    -O Brasil está a apodrecer. Esse Bolsonaro, não tem nada na cabeça e ainda lhe chamam de mito...
    Talvez esta última parte seja preconceito em relação a ele, mas o facto é que ele é uma anta machista! Ponto!
    Beijokitaz





    www.devaneiosdemissl.com

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    1. Olá! Não entendi muito bem o que você quis dizer com o comentário.

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