Eu sei, mas não devia - por Marina Colasanti (Crônica poética)



Como havia comentado com vocês na página do Facebook, estou interessado em fazer cursos de poesia para melhorar minhas habilidades nesse sentido. Então estou participando de um processo seletivo para um curso de Poesia Expandida que para entrar eu preciso enviar 3 trabalhos meus (dentro de formatos específicos), uma carta explicando o porquê do meu interesse e meu currículo resumido.

Dois dos trabalhos que vou enviar eu já sei quais são, alguns poemas que eu já escrevi e ilustrei, porém, o terceiro trabalho eu queria que fosse algo novo. Pensei em escrever uma crônica poética e fui informado pela instituição que esse texto seria aceito sim!


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Poesia, poema e texto?

"Ué, mas é um curso de poesia e você vai enviar uma crônica?"
Muitas pessoas confundem poesia com poema, porém, são duas coisas diferentes. Abaixo algumas explicações breves, além de uma definição de texto dentro de comunicação e linguística (que é mais abrangente que escrita).


Prosa poética, função poética da linguagem.
Iracema (1884), por José Maria de Medeiros (1849-1925) - Pintura inspirada no clássico da literatura de mesmo nome do autor José de Alencar.
  • Poesia é uma função da linguagem, ou seja, pode ser utilizada nas mais diversas formas e gêneros textuais possíveis. Aliás, não só textos escritos como também visuais, sonoros e outros. Um exemplo de texto poético que não é um poema é o livro 'Iracema' (1865) de José de Alencar, ele é uma prosa poética. Quem já leu esse livro para o vestibular? Acho tão lindo 💔



Tirinhas são um tipo de texto, mesmo que não haja diálogos escritos. (Imagem retirada da internet)
  • Textos não necessariamente precisam ser escritos, uma tirinha apenas com imagens e símbolos é um texto também, um desenho pode ser um, gestos também e muitas outras coisas.
"Um texto é uma ocorrência linguística, escrita ou falada de qualquer extensão, dotada de unidade sociocomunicativa, semântica e formal. É uma unidade de linguagem em uso." (COSTA VAL, 1991.). 


Exemplo de poema da autora e artista plástica Rupi Kaur, uma das minhas favoritas e um dos maiores nomes do gênero na atualidade.
  • Poema é um formato de texto que possui linguagem poética, ele é composto de versos. Também existem poemas visuais.



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Por que escolhi a crônica? ⏳

Esse curso é justamente sobre usar a função poética em diferentes tipos de textos, então penso que seria interessante se eu já fizesse isso nos meus trabalhos para a seleção, não? Meus poemas já possuem ilustrações, que também exploram a função poética de outras formas além das palavras escritas, e eu queria que o terceiro texto fosse diferente, pensei em escrever uma crônica, ilustrá-la e diagramá-la de um jeito especial 😍

Crônica é um texto literário que geralmente é publicado em jornais e revistas, ele transmite a época em que foi escrito podendo falar desde acontecimentos históricos a coisas do cotidiano. Por isso ele tem esse nome que vem de 'Cronos' do grego que significa tempo (um titã da mitologia grega, filho de Urano e pai de Zeus).

A crônica também trabalha com a subjetividade, trazendo reflexões sobre o acontecimento ou questão cotidiana abordada. Ela também é uma espécie narração e possuí algumas características desse gênero como a presença de personagens, entre outros.

Então resolvi ler textos desse gênero para me inspirar e eu descobri um texto incrível e gostaria de compartilhar com vocês.
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"Eu sei, mas não devia
por Marina Colasanti


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.


A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."

O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

Referências

  1. Brasil Escola - A Função Poética da Linguagem. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/redacao/funcao-poetica-linguagem.htm>. Acesso em 16 de Fevereiro de 2019;
  2. Figuras de Linguagem - Qual a Diferença Entre Poema e Poesia? Veja Exemplos. Disponível em: <https://www.figuradelinguagem.com/gramatica/qual-a-diferenca-entre-poema-e-poesia/>. Acesso em 16 de Fevereiro de 2019;
  3. Ficçomos - CONCEITOS BÁSICOS DO POEMA | PARA ESCREVER OU ESTUDAR POEMAS. Disponível em: <https://youtu.be/Jvv4JyrM_nE>. Acesso em 16 de Fevereiro de 2019;
  4. Noma Culta - Texto: O que é um texto? Disponível em: <https://www.normaculta.com.br/texto-o-que-e-um-texto/>. Acesso em 16 de Fevereiro de 2019;
  5. COSTA VAL, M. da Graça. "Redação e textualidade". São Paulo, Martins Fontes, 1991;
  6. Brasil Escola - Crônica. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/redacao/cronica.htm>. Acesso em 16 de Fevereiro de 2019;
  7. COLASANTI, Marina "Eu sei, mas não devia", Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1996.



Comentários

  1. Olá,

    Gostei muito de você apresentar essas diferenças sobre estilos, pois os mesmos são bem confudidos. Também sou uma grande fã da Rupi, ela é muito maravilhosa e seus poemas sempre me tocam.
    Esse texto está maravilhoso e concordo com muitas partes dele, pois não devíamos muitas coisas. Adorei o post!

    Beijos!

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  2. Melhorar a escrita é sempre bom, então super apoio esse curto. Quero fazer um assim também.

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  3. Olá
    Sobre prosa poética vou te indicar um autor que é para mim pura poesia Mia Couto ❤️
    Quanto a crônica compartilhada só posso dizer que é a mais pura verdade, nos acostumamos demais à muitas coisas, mas Eu não consiguo me acostumar a propaganda e esse é um dos motivos que ando entrando tão pouco nas redes sociais

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  4. Olá!
    A crônica que você selecionou me tocou demais, é perfeita, todos deviam lê-la.
    Não conhecia esse tipo de curso que está a entrar, parece muito promissor e muito interessante.
    Adorei o post!

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