Psicologia X Psiquiatria: nessa guerra quem perde é o paciente (Opinião)

Porque ela é ruim para os pacientes.


[Esse artigo é a minha opinião sobre o tema como estudante de Psicologia, que tem contato com psiquiatras, e também como paciente.]
Estou inspirado para escrever sobre esse assunto, como vocês devem ter percebido, porque tenho discutido muito sobre isso com profissionais de ambas as áreas e tenho concluído muitas coisas que gostaria de compartilhar com vocês.

Se você estiver procurando tratamento, além de ler esse texto, recomendo que também leia meus outros artigos com dicas úteis de detalhes que você deve se atentar ao buscar psicólogos/psicoterapeutas e psiquiatras:
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Acredito que essa discussão existe principalmente por arrogância e orgulho. De um lado temos psicólogos, psicoterapeutas e psicanalistas que menosprezam a importância dos tratamentos médicos como remédios ou qualquer outro procedimento. Do outro temos médicos psiquiatras que menosprezam a importância da psicoterapia, julgam que é besteira e que os remédios resolvem tudo.


Transtornos mentais são multifatoriais

Multifatorais
(Imagem retirada do site Clipartmax)

Segundo as pesquisas científicas mais recentes sobre as causas dos transtornos mentais, eles tendem a ser multifatoriais. Isso significa que uma depressão, por exemplo, tem tantos componentes bioquímicos e genéticos/hereditários quanto ambientais e psicológicos. Mesmo transtornos mentais endógenos (com causas físicas) conforme vão se desenvolvendo acabam se tornando psicológicos também. Isso acontece porque os sintomas acabam tendo impacto psicológico e a psicoterapia também é útil nesses casos porque faz com que a pessoa aprenda a lidar melhor com eles.

Exemplo de problema que pode ter consequências psicológicas mesmo talvez tendo causas físicas.
Disfunção erétil.

Vou fazer uma analogia: disfunção erétil. Um rapaz pode ter problemas para manter ereção por alguma questão física em seu corpo, como deficiência de vitaminas, entre outras possibilidades, porém, o sofrimento e o constrangimento causado pela disfunção acabam fazendo com que ele desenvolva problemas psicológicos também.

Ele passa a ficar mais ansioso quando vai transar com alguém com medo de o seu pênis não funcionar, a ansiedade ainda torna as coisas mais difíceis porque dificulta que ele relaxe e de fato tenha uma ereção. Logo, ele entra em um círculo vicioso em que é cada vez mais difícil conseguir ficar ereto.

Além disso, pode ele se tratar com remédios, mas ainda permanecer com os problemas psicológicos que desenvolveu e mesmo tendo a parte física da doença totalmente resolvida, ainda terá dificuldade para ter ereção. Esse rapaz poderia se beneficiar muito de psicoterapia, por exemplo, mesmo que a causa inicial do seu problema seja endógena, conforme ele foi agravando, tomou proporções que envolveram seu psicológico também!


I) O lado problemático dos psicólogos/psicoterapeutas: consequências de tratar um transtorno apenas com psicoterapia

Rixa entre Psicologia e Psiquiatria.
(Imagem retirada do site UIhere)

Infelizmente, muitos psicoterapeutas são contra a utilização de medicamentos. Tal pensamento é muito problemático e de certa forma arrogante porque eles demonstram que o seu trabalho e a ciência Psicologia são mais úteis e importantes que o dos outros, como o dos médicos e psiquiatras.

Como falei, as causas multifatoriais dos transtornos mentais já são um consenso dentro do meio científico, então tratar apenas com psicoterapia pode ser um tratamento incompleto porque só contempla uma das facetas da condição de saúde do paciente.

O paciente tem direito de conhecer as ferramentas e recursos disponíveis que pode utilizar para se tratar

É claro que nem sempre as pessoas necessitam de remédios, graus mais leves de depressão e ansiedade, por exemplo, podem ser tratados apenas com psicoterapia. Além de que nem todo mundo que procura terapia tem um diagnóstico (e ela nem é indicada apenas para quem tem), mas o paciente tem que ter a liberdade e o conhecimento necessário para decidir se realmente quer seguir o tratamento apenas dessa forma.

Muitos psicólogos omitem a necessidade de medicamentos, empurrando as suas crenças pessoais de que os remédios não são úteis para cima dos pacientes e quem paga o preço são eles que poderiam ter uma vida muito mais fácil e resultados melhores se tivessem o acompanhamento dos dois profissionais. Omitir ou distorcer informações para manipular as escolhas do paciente, na minha opinião, é antiético.


Psicoterapia sem remédios pode ser ineficaz



Psicoterapia pode ser ineficaz em alguns casos se o paciente não estiver bem medicado.
(Imagem retirada do site Clipartmax)

Uma pessoa acometida por um transtorno pode não ter resultados satisfatórios na psicoterapia se não estiver bem medicada. Alguns transtornos mentais comprometem o discernimento e a qualidade do julgamento das pessoas, isso faz com que elas não sejam capazes de assimilar o que é trabalhado na psicoterapia. Até mesmo um paciente com depressão ou ansiedade mais leve e moderadas pode não ter bons resultados se não usar medicamentos. Muitas vezes ele fica andando em círculos, os esforços dele e do psicoterapeuta se tornam inúteis em algumas questões.

Sou diagnosticado com Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) e passei por alguns psiquiatras até finalmente encontrar os medicamentos mais adequados para o meu caso, eu continuava fazendo psicoterapia e ela me ajudou muito. Porém, tinha coisas que tanto eu quanto a minha psicóloga percebia que não iriam ser resolvidas apenas ali. Se uma pessoa está com a química do seu cérebro desregulada, não adianta muito ficar fazendo apenas psicoterapia porque ela só trata a parte psicológica do transtorno.

Então quando encontrei os remédios certos, aproveitei muito melhor a psicoterapia.


Alguns psicoterapeutas, principalmente psicanalistas, defendem que os remédios nunca devem ser utilizados porque uma pessoa que não está medicada teoricamente revelaria mais coisas do seu inconsciente que poderiam ser tratadas na terapia, mas nisso o paciente sofre muito e pode acabar cometendo suicídio ou tendo prejuízos terríveis em sua vida.

Além disso, mesmo que de fato questões inconscientes sejam reveladas, a pessoa não vai ter condições de assimilá-las. Isso é similar a um psicoterapeuta ir desarmando todos os mecanismos de defesa de uma pessoa sem que ela tenha o ego forte o suficiente para isso. Nesse caso ela pode piorar muito seu quadro, o mais adequado é fortalecer o ego do paciente e ir aos poucos removendo seus mecanismos de defesa. Se a pessoa for melhorando com a psicoterapia ela vai dependendo menos dos remédios e pode reduzir as doses.

Em alguns casos até suspendê-los completamente (quem avalia isso são os médicos, não os psicólogos, ok? Existem alguns casos que a pessoa necessita tomar uma dose de medicamentos para o resto da vida ou por muitos anos).


Determinismo

Essa também é uma visão muito determinista porque considera como se os transtornos mentais fossem apenas psicológicos sendo que muitos sintomas da depressão são de origem bioquímica. Uma pessoa deprimida pode ter de fato um desequilíbrio químico e isso afeta a forma como ela vê o mundo não é exclusivamente psicológica.

A teoria psicanalítica também não ignora os fatores bioquímicos das condições mentais. Ela foi inovadora por explorar o lado psicológico dos transtornos e a cura pela fala, mas um psicanalista trabalhar com esse determinismo não está de acordo com a teoria de fato nem com as descobertas científicas atuais. Até porque Freud era médico neurologista e outros psicanalistas, e teóricos das Psicologias Profundas também eram médicos, como C. G. Jung que era psiquiatra.

Picuinhas e crenças pessoais são mais importantes que o bem estar do paciente?

As crenças e picuinhas de um psicoterapeuta com os psiquiatras são mais importante que o bem-estar e a vida do seu paciente? Acessar mais a fundo o inconsciente dele mesmo ás custas de seu sofrimento é mais importante que a sua melhora?

Penso que essa autocrítica precisa urgentemente ser feita por esses profissionais.


II) O lado ruim dos psiquiatras: excesso de medicamentos e outros problemas

Rixa entre Psicologia e Psiquiatria.
(Imagem retirada do site UIhere)

Não é segredo para ninguém que a Psiquiatria tem um passado obscuro, como tratamentos eficazes eram escassos, a sociedade não sabia lidar com os doentes mentais e os depositava nos chamados manicômios que serviam apenas para retirar essas pessoas do convívio social e não causar inconvenientes aos "sãos".

Alguns tratamentos tinham até alguma base, mas eram praticados de forma desumana e até mesmo com propósitos diferentes dos quais foram desenvolvidos e que não haviam evidências de eficácia nesses casos. Um claro exemplo é a eletroconvulsoterapia, conhecida popularmente como 'eletrochoque' que é um tratamento que possui uma base, mas que era praticado de forma desumana sem o uso de anestesia com aparelhos que não regulavam adequadamente a voltagem elétrica utilizada. Além de serem utilizados para castigar e torturar os pacientes provocando medo e assim deixando eles mais retraídos e reclusos.


Tratamentos visavam apenas facilitar a vida dos médicos, não a melhor da qualidade de vida dos pacientes

Nise revolucionou o tratamento de transtornos mentais no Brasil.
Dra. Nise da Silveira uma das figuras responsáveis por humanizar o tratamento de transtornos mentais no Brasil. (Imagem retirada da internet)


Outro tratamento polêmico era a lobotomia, que foi abolida, consistia na remoção de uma parte do cérebro dos pacientes e os transformava em verdadeiros zumbis, dessa forma eles davam menos trabalho à sociedade, mas eles melhoravam? Não, infelizmente a medicina naquela época não trabalhava muito visando a real melhora dos quadros e o aumento da qualidade de vida dos pacientes, mas sim em formas de torná-los mais fáceis de lidar pela sociedade, médicos e familiares. Tivemos figuras importantes contra essa visão, como a Dra. Nise da Silveira, que chegou a ser presa e acusada de ser comunista.

Episódio da série Lore da Amazon sobre a história da lobotomia.
Série Lore, exclusiva da plataforma Amazon Prime Video, tem um episódio sobre lobotomia.

Infelizmente, a psiquiatria ainda carrega resquícios dessa visão. Alguns psiquiatras diminuem a importância de figuras como a Dra. Nise dizendo que ela atrasou o avanço da psiquiatria e teria, segundo eles, contribuído para o sofrimento de pacientes psicóticos.

Nem preciso dizer o quanto essa visão é problemática, né? Na verdade, a Dra. Nise se posicionou contra tratamentos como 'eletrochoque' porque ele era praticado de forma desumana, os critérios para definição da voltagem eram nebulosos e alguns médicos colegas de trabalho dela inclusive debochavam disso.

Isso aparece no filme 'Nise: O coração da loucura' que está disponível na Netflix ou em outras plataformas digitais para quem quiser assistir (vale a pena). Além de que ela adotou formas de tratamento envolvendo arte que melhoraram muito a qualidade de vida dos pacientes e deram origem ao Museu de Imagens do Inconsciente.



Uso abusivo dos medicamentos

Esse é outro problema, alguns psiquiatras receitam muitos medicamentos aos seus pacientes sem necessidade. Conheci uma pessoa que tinha ansiedade moderada e tomava 8 remédios diferentes. Então perguntei: "Você faz psicoterapia?" e a pessoa me disse que não fazia porque seu médico não havia encaminhado para tal.

É cientificamente comprovado que os remédios não conseguem tratar sozinhos os quadros, assim como a psicoterapia sozinha também não consegue, a eficácia fica reduzida e pode inclusive ser nula. As pesquisas também comprovam que a psicoterapia é mais eficaz que os medicamentos na maioria dos quadros, a psicodinâmica, por exemplo, segundo uma pesquisa publicada pela American Psychological Association (APA) possuí uma taxa de eficácia de mais que o dobro dos melhores antidepressivos do mercado.

É claro que isso não significa que os remédios devem ser ignorados, o melhor tratamento possível é uma combinação do médico/medicamentoso com o psicológico/psicoterapia. Uma pessoa com ansiedade moderada tomar 8 remédios, mas não fazer psicoterapia é muito problemático porque ela precisa lidar com uma quantidade absurda e desnecessária de efeitos colaterais e só está tratando um lado da sua condição.


É claro que existem alguns quadros que realmente precisam de uma quantidade maior de remédios, bipolares graves muitas vezes necessitam de uns 3 estabilizadores de humor, além de outras classes de medicamentos, mas sair receitando um monte para as pessoas a rodo é uma atitude irresponsável que ainda ocorre.

[Não podemos generalizar, existem profissionais bons e ruins em ambas as áreas, ok?]

Uma coisa que também me incomoda no mundo da psiquiatria é que alguns profissionais ignoram ou dão menos importância para alguns efeitos colaterais que podem impedir a melhora de um paciente. Exemplo: existem alguns remédios psiquiátricos que engordam, se uma pessoa está deprimida e tem problemas de autoestima e ela toma um remédio desses e engorda 12 kg em apenas um mês ela vai melhorar ou piorar?

Sinceramente, na minha experiência com outros pacientes, eles acabam piorando ou ficando estagnados porque a melhora química proporcionada pelo remédio não consegue compensar a piora psicológica. Alguns psiquiatras omitem alguns efeitos colaterais desse tipo, nem sempre de má-fé com intuito de enganar os pacientes, às vezes eles só realmente não enxergam como graves já que, afinal, não são eles que vão experimentá-los.

Os riscos do uso irresponsável dos remédios tarja preta

Eles não foram desenvolvidos para uso contínuo.
Rivotril, ou Clonazepam (nome genérico) é o tarja preta mais famoso aqui no Brasil e também um dos remédios mais vendidos. (Imagem retirada da internet)

Tais remédios não são de uso contínuo, ou seja, não foram desenvolvidos para serem tomados todos os dias ou várias vezes ao dia por um tempo muito prolongado. Em épocas de crise aguda pode ser útil que a pessoa tome todos os dias, mas isso deve acontecer apenas durante as crises, depois o paciente precisa desmamar. Eles devem ser utilizados em emergências ou situações pontuais, uma pessoa está com uma insônia muito severa? Deve tomar. Está tendo um ataque de pânico muito forte? Uma boa tomar nesse caso também.

O problema é que conheço pessoas que tomam remédios assim vezes ao dia por anos e pior: porque o psiquiatra prescreve assim mesmo. Se a pessoa tomar dessa forma ela acaba desenvolvendo outro problema que é a dependência química, aí além de ela não ter melhorado de fato sua queixa inicial, apenas mascarado, ela passa a ter mais dificuldade ainda para resolvê-la porque quando está sem o remédio sofre com abstinência.

[Atenção: remédios tarja preta geralmente são os ansiolíticos ou hipnóticos, antidepressivos e algumas outras classes de medicamentos não possuem os problemas que descrevi aí em cima e foram de fato desenvolvidos para serem utilizados de forma contínua.]


O problema não está nos remédios, mas sim nos maus profissionais

É importante deixar isso claro, não é porque alguns psiquiatras abusam dos remédios que isso significa que os medicamentos são ruins, o excesso e a irresponsabilidade que são. Existem tanto médicos bons quanto ruins. A demonização dos médicos e dos remédios é um problema, prejudica a qualidade de vida das pessoas que acabam por ficar com receio de se tratar adequadamente e por conta disso podem ver seu quadro se agravar no decorrer dos anos.

O mesmo se aplica a alguns outros tratamentos médicos como a eletroconvulsoterapia que foi completamente reformulada e hoje é humana, rápida, indolor e segura, mas muitas pessoas querem que ela seja abolida porque no passado ela era utilizada para tortura. Isso seria como querer abolir os bisturis ou outras ferramentas médicas porque elas poderiam ser usadas com outros fins. A eletroconvulsoterapia (ECT) atualmente é regulamentada pela ANVISA e é um tratamento que pode ajudar muitas pessoas, principalmente as que não respondem a outros.

Conclusão: as duas áreas podem (e devem) trabalhar em conjunto para o bem estar do paciente

Contribui para o bem estar do paciente.
(Imagem retirada do site Clipartmax)

O melhor dos mundos é que os psicólogos/psicoterapeutas e psiquiatras não menosprezem o trabalho um do outro, até porque eles não têm o conhecimento necessário para tal, na maioria das vezes é pura arrogância e ignorância sobre a área um do outro mesmo.

Acho curioso que isso não acontece em outras áreas da saúde. Alguém já viu um ortopedista invalidar o trabalho de um fisioterapeuta e vice-versa? Eu nunca vi…

As formas de tratamento mais indicadas pelas descobertas científicas mais atuais para transtornos mentais incluem tanto a utilização de medicamentos e outros tratamentos médicos (em alguns casos específicos), quanto a psicoterapia, os dois são complementares. Profissionais éticos devem se guiar por isso e o psiquiatra deve encaminhar seus pacientes para a psicoterapia assim como os psicólogos para um médico se perceberem que é necessário.

É claro que muitos profissionais têm essa consciência, mas infelizmente tem alguns que não.


Psicologia X Psiquiatria: nessa guerra quem perde é o paciente (Opinião)
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Referências

  1. FREITAS-SILVA, Luna Rodrigues; ORTEGA, Francisco "A determinação biológica dos transtornos mentais: uma discussão a partir de teses neurocientíficas recentes". Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csp/v32n8/1678-4464-csp-32-08-e00168115.pdf>. Acesso em 15 de Janeiro de 2019;
  2. SILVA, Jose Otavio Motta Pompeu e "A arte na terapêutica ocupacional de Nise da Silveira". Disponível em: <http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/284451>. Acesso em 15 de Janeiro de 2019;
  3. American Psychological Association (APA) - Psychodynamic Psychotherapy Brings Lasting Benefits through Self-Knowledge. Disponível em: <https://www.apa.org/news/press/releases/2010/01/psychodynamic-therapy.aspx>. Acesso em 15 de Janeiro de 2019.



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