Bissexualidade e os meio-termos (Mês da Diversidade)

Bissexualidade e os meio-termos (Mês da Diversidade)
Bissexualidade e os meio-termos (Especial Mês da Diversidade)

Estamos no mês da diversidade e hoje (23/06) será realizada a 23ª Parada do Orgulho LGBT+ em São Paulo, então não quis deixar essa data passar porque considero ela muito importante dentro do contexto político que o Brasil vive atualmente. Resolvi fazer um esforço e arranjar um tempinho nesse final de semana cheio de compromissos e escrever para vocês.

Fiquei um bom tempo refletindo sobre o que eu escreveria, que tipo de abordagem o texto teria, e decidi que vou fazer jus ao nome do blog e trarei relatos e reflexões sobre a minha vivência enquanto LGBT+. Até porque foi um uma sugestão minha psicóloga e estou para escrever sobre isso há bom tempo e hoje surgiu a oportunidade. Esse é o primeiro de muitos futuros textos sobre esse assunto.

Para quem não sabe, me acompanha há pouco tempo, ou nunca leu nenhum texto em que menciono isso, eu me considero LGBT+. Eu costumava me afirmar bissexual, mas fico cansado de me apresentar dessa forma por causa dos debates que acontecem sempre, então prefiro dizer que gosto de garotos e de garotas, de pessoas...

Basicamente, quando eu me declaro bissexual, surgem pessoas que invalidam minha sexualidade afirmando que ela não existe (tanto heterossexuais, quanto homossexuais), que tenho que ser uma coisa ou outra, ou que sou um farsante que fala isso para chamar atenção e "chocar".

Também tem outro lado, pessoas que geralmente são do próprio movimento LGBT+ que dizem que eu não sou bissexual, mas sim pansexual e elas nunca entram em consenso sobre a diferença entre esses dois termos.


A dificuldade em aceitar a existência dos meio-termos

Seres humanos não são gatos para serem colocados em caixinhas.

Eu Perceboe as pessoas têm muita dificuldade em aceitar que uma pessoa tenha preferências, características ou estilos de vida aparentemente antagônicos. Há um tempo conheci um rapaz que tem um estilo andrógeno e utiliza algumas peças de roupas femininas, mas que se considera totalmente homem. Ele é engenheiro (profissão que socialmente é vista como de "machos") e, enquanto gosta de coisas muito femininas, também aprecia algumas vistas como masculinas ou hétero.

Tem amigos meus que são gays, mas que gostam de futebol e coisas vistas como "de hétero" e de certa forma outros LGBT+s zombam disso. As pessoas, o tempo inteiro, estão tentando colocar quem foge às regras e aos estereótipos em caixinhas e chega a ser irônico ver que muitas vezes os próprios LGBT+s fazem isso.

O curioso é que as coisas não têm gênero, nem sexualidade. Quem tem são as pessoas, elas também têm personalidade, gostos, preferências, emoções, etc. Então, porque implicar com alguém que gosta de um determinado esporte, profissão ou de uma determinada cantora porque isso supostamente foge ao estereótipo de gênero, ou sexualidade que a pessoa possui?

Dentro da comunidade de homens homossexuais, existem os ativos (quem penetra durante o sexo), os passivos (os que são penetrados) e os versáteis (que fazem os dois). Diante disso existem muitos estereótipos de como cada um desses "papeis" tem que se portar e como sempre, as pessoas implicam com quem gosta de assumir as duas posições dizendo que versáteis são "passivos mascarados".

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Também existem os que não gostam de nenhuma dessas coisas, mas não vou citar eles aqui para não me prolongar muito e, porque esses 3 casos bastam para a reflexão que proponho aqui.

Do lado hétero, garotos bissexuais (ou com outras identidades não-monossexuais) são vistos como menos viris, como se não fossem homens mesmo, e muitas mulheres simplesmente fogem deles. Como se fizesse alguma diferença, na prática, eu, pelo menos, quando me relaciono com alguém me preocupo apenas se a pessoa se interessa e se atrai por mim, não se ela também pode se interessar por outros perfis de pessoas.

Eu não sou contra rótulos, penso que eles podem ser muito empoderadores, inclusive. E até são necessários nos debates políticos, porém, quando eles se tornam muito rígidos, se estendem para outras questões e as pessoas começam a querer encaixar as outras em caixinhas, já acho problemático.

A diversidade humana é muito maior, então porque precisamos rotular tudo? Rotular até que tipo de música a pessoa de determinada característica pode consumir? Que tipo de roupa ela precisa vestir? De filme? Jogo? Esportes? Porque ela não pode ser uma combinação dessas coisas ou só uma delas?


A diferença entre bissexual e pansexual

Bissexualidade e os meio-termos (Especial Mês da Diversidade)
Bandeira do orgulho pansexual. (Imagem retirada do Wikipedia)

O termo pansexual surgiu mais recentemente nas discussões sobre sexualidade, tanto é que ele ainda não foi incluído na sigla do movimento, mas ele vem também como uma demanda de contemplar pessoas com sexualidades não-monossexuais que não se sentiam contempladas pelo bissexual que é mais antigo.

Monossexuais são pessoas que se atraem apenas por um gênero específico (exemplo: heterossexuais e homossexuais), enquanto pessoas não-monossexuais são as que se atraem por diferentes gêneros em diferentes níveis de intensidade.

No entanto, muitas pessoas não entendem a diferença entre bissexualidade e pansexualidade, e como falei lá em cima, não existe consenso.

Algumas pessoas afirmam que bissexuais são quem se atrai apenas por homens e mulheres cisgênero, enquanto pans se atraem também por trans, mas considero isso problemático. Esse pensamento acaba invalidando a identidade das pessoas transgênero.

[Observação adicionada em 28/06/2019:

Pessoas cisgênero são quem se identifica com o gênero designado a elas no nascimento, ou seja, que nasceram com um sexo biológico e se identificam com o gênero atribuído a ele.

Pessoas trans são o oposto. Por exemplo, uma pessoa que nasceu com o sexo biológico masculino, mas se identifica como sendo do gênero feminino é uma pessoa trans.]


Outros falam que a diferença é que pessoas pansexuais também se atraem por gente com gênero não-binário que são quem não se considera nem de um, nem de outro, mas um meio-termo entre ambos ou um terceiro (depende de cada um). Eu também acho esse pensamento problemático porque ele faz parecer que atração sexual-afetiva é algo racional. Fica parecendo que cada pessoa faz uma checklist antes de decidir que se sente atraída por alguém.

O problema é que nem todas as características de gênero das pessoas são visíveis. Então, existem pessoas trans que não sentem necessidade de transicionar e algumas que sequer se consideram trans, mas gostam de utilizar roupas de outro gênero. Isso porque expressão de gênero é diferente de identidade de gênero.

Então posso me atrair por alguém e só depois de conhecer a pessoa descobrir que ela tem uma identidade ou expressão de gênero diferente, ou que ela prefere que se refiram a ela com um determinado pronome. Não que essas variáveis todas não façam diferença, mas eu pessoalmente, não consigo concordar com a ideia de que atração sexual-afetiva é algo rígido dessa forma.

Bissexualidade e os meio-termos (Especial mês da Diversidade)
Bandeira do orgulho bissexual. (Imagem do Wikipedia)

Então, a definição que faz mais sentido para mim (deixando bem claro que não é consenso algum, então muita gente pode discordar), é que bissexualidade é um termo mais antigo e que tem uma importância história na luta de direitos das minorias. Enquanto o termo pansexualidade surgiu para classificar as orientações sexuais removendo a dualidade e binarismo de gênero (o "bi") já que existe uma pluralidade de pessoas maior nesse sentido.

Como estou muito saturado dessas discussões e não quero fomentar elas sempre que alguém pergunta minha sexualidade, eu simplesmente abandonei os rótulos e me considero apenas alguém que se atrai por pessoas de diferentes identidades e expressões de gênero. Garotas, garotos e muito mais.

Sou um garoto meigo e doce, adoro uma diva pop: Britney Spears, Rihanna, Lady Gaga, mas às vezes me pego ouvindo o rap de um Jay-Z da vida. Cometo algum pecado? Não, a música não tem gênero, ela sequer é uma pessoa. Ouço o que eu gostar, tenho a característica que quiser e a sexualidade que bem entender.
Não me sinto menos homem, não me sinto menos LGBT+, não me sinto menos humano.
Feliz mês da diversidade, feliz Parada do Orgulho! Comente, compartilhe com seus amigos e volte sempre 😇


Bissexualidade e os meio-termos (Especial Mês da Diversidade)
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Comentários

  1. A primeira coisa que me veio a mente foi a voz do Renato Russo dizendo que gostava de São Paulo, gostava de São Francisco e gostava de meninos e meninas.
    A segunda coisa foi a dificuldade das pessoas deixarem as outras se encontrarem e serem feliz, se não está matando/roubando/prejudicando, o que tem de mais?
    Mais empatia e menos dedos, assim a humanidade volta a evoluir.

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    1. Com certeza! Mas tenho fé que continuaremos a avançar nessas questões ❤

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  2. Eu nunca tive dúvida em saber do que eu gosto sabe? Sempre gostei de mulheres, e respeito quem gosta de pessoas do mesmo sexo ou de quem gosta de ambos! Acho que você fez um ótimo trabalho em trazer esse post! Com certeza irá ajudar muita gente!

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    1. Olá! O importante é respeitar as diferenças.

      Obrigado por comentar ❤

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  3. Não conhecia essas definições embora já tivesse ouvido o termo pansexual. Gostei da perspetiva de que os rótulos podem ser empoderadores, é uma visão nova e impulsionadora. Parabéns por este texto muito bem escrito!

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    1. Obrigado pela visita ❤

      Com certeza, acredito que os rótulos podem ajudar a nossa identidade e ajudar em lutas por direitos, mas eles também podem nos limitar. Existem esses dois lados.

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  4. Acredito que muitas pessoas não "aceitam" o termo por sempre questionar quem se denomina bissexual a qual lado ele tende mais, o que vamos combinar é algo ofensivo. Acredito que as pessoas não deveriam ter que definir sua orientação sexual, nem provar nada a ninguém, acho deveríamos focar no que cada pessoas faz de bom, no amor e na capacidade de amar.

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    1. Eu acho muito esquisita essa lógica de quando as pessoas pedem para alguém provar sua sexualidade.

      Obrigado pela visita ❤

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  5. Oi, Raphael!
    Eu adorei seu post e adorei ver sua vivência exposta assim nesse mês/semana tão importante pro mundo de um modo geral, onde sexualidade e identidade de gênero ainda é tabu, mas (como você mesmo disso) principalmente por causa desse apocalipse político que estamos vivendo no Brasil e que vai se alastrando pelo mundo... O Orgulho LGBTQ+ não é só orgulho de ser, o que é muito necessário também, mas cada vez mais de sobreviver!
    Sobre o preconceito com a não-monossexualidade mesmo no meio, tem uma história que nunca sai da minha cabeça e aconteceu há mais de 10 anos atrás... A primeira amiga próxima que tive que é declaradamente lésbica uma vez falou "mulher bi não dá, elas sempre vão sentir falta de homem quando tão com a gente" e fiquei um pouco chocada com essa observação. Me pareceu preconceituoso, e é mesmo, né? Como se a possibilidade de ver as pessoas como pessoas, e não gêneros, tornasse alguém desleal. Pra mim sempre foi difícil opinar porque, como hétero, tenho que saber onde é ou não meu lugar de fala, mas naquele momento percebi que eu jamais teria preconceitos assim.Espero que a gente esteja construindo um mundo onde as pessoas vão se desconstruindo sobre tudo isso, também!

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    1. É uma insegurança bem curiosa que lésbicas tem ao se relacionar com mulheres nã0-monossexuais. Na minha opinião é uma insegurança fantasiosa mesmo porque mulheres homossexuais também se atraem por outras pessoas.

      Então a possibilidade de infidelidade é a mesma.

      Obrigado pela visita ❤

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  6. Adorei o texto, e amei o fato de você se expor. Como você disse, rótulos são importantes mas não podem ser limitantes. É importante sim falar sobre eles, tem muita gente que, por não saber a diferença ou não conhecer os termos, querem desmecer os outros. Parabéns pelo texto!!!

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    1. Obrigado ❤

      Acho que quando a gente se expõe assim, acabamos ajudando pessoas nas mesmas condições que não tem coragem ainda de se assumir e se orgulhar de quem são.

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  7. Eu sempre fiquei em dúvida entre bissexual e pansexual. Sempre me perguntava: "Se bi gosta dos de homem e mulher, e Pan também, então qual a diferença?" Mas aí depois veio todo esse auê de diversos tipos de gêneros e pude entender um pouco mais. A gente olha muito para o que é físico e qual órgão genital a pessoa possui, mas se esquece de como a pessoa se sente por dentro.

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    1. A diferença é mais na nomeclatura do que na questão de quem se atrai por quem. Por isso recentemente eu prefiro me definir como não-monossexual mesmo.

      Obrigado pela visita ❤

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  8. Acredito que o respeito é muito mais importante do que tentar definir alguém ou dizer de que sexo essa pessoa deve ser, de quem ela deve gostar ou como deve se comportar perante a sociedade. As pessoas se preocupam mais em cuidar da vida das pessoas do que ter empatia e respeito, e isso é a pior parte da humanidade. Adorei o texto, e continue escrevendo, o mundo precisa ler sobre isso.
    Beijos - Giovanna Otuka
    www.giovannaotuka.blogspot.com

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    1. Olá! Concordo, temos que continuar lutando para que um dia as coisas sejam assim.

      Obrigado pela visita ❤

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  9. Primeiramente parabéns pelo post! Muito bom e completo. Eu sinto que realmente os bissexuais são um dos que mais sofrem dentro da comunidade, por serem descriminados por membros dela mesma. Absurdo como não aceitam que alguém pode ser bi! Mas enfim, achei o seu post ótimo para conscientizar sobre isso.

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    1. Com certeza, acho importante a gente fomentar esse tipo de discussão, especialmente essa época do ano. Então resolvi trazer minha vivência ❤

      Obrigado pela visita ❤

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  10. Olá!

    Infelizmente dentro da própria classe LGBT existe muitos preconceitos e rótulos, o que é irônico visto que uma grande maioria deseja extinguir esses rótulos, não é mesmo? Estamos num momento de luta pelos nossos direitos, para garantir nosso espaço digno, esse deveria ser o foco. O ideal nesse é acolher e aceitar a forma como cada um se entende e lutar juntos, de mãos dadas somos mais fortes.


    Abraço,
    Diego França | www.blogvidaeletras.blogspot.com

    Muito bom seu

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    1. Com certeza, mas são coisas socialmente construídas há tantos anos que vamos precisar de muitos outros para mudar, mas temos de continuar fomentando essas discussões.

      Obrigado pela visita ❤

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  11. Muito interessante o tema abordado e a forma como você explica a bissexualidade que para muitos realmente é um paradigma ou não existe. Ótimo relato.

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    1. Realmente, as pessoas não conseguem lidar muito bem com esses meio-termos.

      Muito obrigado pela visita ❤

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  12. Esse post foi praticamente uma aula sobre a bissexualidade e sua repercussão, mesmo com o preconceito que há na sociedade, devemos respeitar a opção de cada um. Parabéns pelo post esclarecedor.

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