Tudo começa na falta de empatia (Setembro Amarelo)

Setembro Amarelo
(Imagem retirada do site Pixabay)

Estamos em setembro e em todos os anos durante esse mês são feitas inúmeras campanhas relacionadas a prevenção do suicídio. Acho esse tema importantíssimo e, obviamente, eu pretendia escrever alguma coisa a respeito, mas queria apresentar algo novo. Propor diferentes reflexões.

Primeiro temos que considerar alguns dados importantes. O consumo de antidepressivos no Brasil cresceu exponencialmente nos últimos anos, e por aqui também são vendidas mais de 50 milhões de caixas de ansiolíticos e soníferos por ano. Além disso, contrariando a tendência mundial, as taxas de suicídios entre jovens no Brasil tem crescido também. Esses números nos revelam que estamos doentes. Não é um problema pontual, mas estrutural: nossa sociedade está cada vez mais deprimida e ansiosa.

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Psicanaliticamente falando, podemos considerar esses indicadores como sintomas de uma doença social maior. Portanto, talvez, o primeiro passo para melhorá-los seja identificar suas causas ou o que estes sintomas tentam nos comunicar. Obviamente, poderíamos discorrer sobre inúmeros fatores, mas tem um que tem dominado minhas reflexões recentemente e que eu gostaria de chamar atenção com esta publicação: a falta de empatia.

Você sabe o que é empatia?



Nada mais é do que a capacidade de se colocar no lugar do outro, se relacionar com a sua dor, mesmo que nunca tenha vivido uma situação semelhante. Aliás, a empatia é incrível justamente por esse fator. Não é sobre ter a vivência parecida sempre, mas conseguir imaginar como seria passar pelo que o outro vive.

Contudo, nem todo mundo possui essa capacidade e ela não nasce conosco. É fruto de bastante amadurecimento e boa vontade, talvez uns bons anos de análise pessoal e psicoterapia. Conheço pessoas que trabalham como terapeutas ou analistas que, evidentemente, não desenvolveram essa capacidade. Isso é bem comum em grupos de profissionais e estudantes da área, inclusive, o que é preocupante.

Tenho percebido como a falta de empatia está presente e provavelmente é uma das maiores causas da situação do mundo em que vivemos, do nosso país e, porque não do nosso adoecimento. Vamos analisar, como é nosso sistema econômico? Ele pautado em individualismo e não possui preocupação com o bem-estar coletivo, apenas com acumulação de recursos e capital.


Aqui em São Paulo, tivemos uma crise hídrica bem acentuada entre os anos de 2014 e 2016 que foi ocasionada por falta de investimento em infraestrutura no sistema de abastecimento de água da cidade. Isso porque a Sabesp, empresa responsável por isso, foi parcialmente privatizada há tempos se tornando uma empresa de capital misto e esse tipo de investimento reduziria a rentabilidade dos acionistas.

Trazendo um exemplo que está mais em evidência atualmente, temos a crise das queimadas na Amazônia. Não é uma questão recente, mas que está dominando as discussões na mídia e nas redes sociais do mundo inteiro. A floresta tem sido devastada desde que nosso país existe como estado institucionalizado porque existem pessoas que ganham com isso e que não estão interessadas nos prejuízos coletivos que isso implica.

Podemos falar também da utilização do petróleo que já se sabe há muito tempo que não é um recurso renovável e que já tem prazo para se esgotar, mas a indústria continua utilizando e poluindo os mares com ilhas gigantescas de lixo plástico descartável.

Concluímos, então, que nosso mundo está doente economicamente, social e ambientalmente por causa do individualismo e da falta de empatia, mas como isso se manifesta em uma escala menor no nosso dia-a-dia?

Egoísmo?

Setembro Amarelo
(Imagem retirada da internet)

Até pouco mais de um ano atrás eu trabalhava em uma empresa de auditoria multinacional. Prestávamos serviço para um banco famoso gigantesco trabalhando diretamente na sede dele. Só que todos os anos, na mesma época, acontece a greve dos bancários em que os prédios são fechados pelos funcionários.

Entretanto, a auditoria não para e tínhamos que trabalhar mesmo nessas condições, só que agora impedidos de utilizar o escritório do banco. Pegávamos nossos notebooks e levávamos para a sede da empresa de auditoria para trabalhar lá, só que ficava absurdamente lotado e era uma disputa sem fim para encontrar onde se sentar. Nessa confusão toda, era comum ver as pessoas xingando ou reclamando dos bancários grevistas, porque, afinal, eles estavam atrapalhando o trabalho deles.

Só que um tempo depois, a nossa empresa começou a cortar alguns direitos trabalhistas. Ela reduziu a porcentagem de pagamento de horas extras. Pessoas que trabalham com auditoria costumam ter um volume muito grande de horas extras, era comum ficarmos trabalhando até depois da meia-noite e voltar para casa de táxi (o que pelo menos a empresa bancava) para retornar lá de manhã no dia seguinte nos períodos de alta demanda.


Isso provocou muita revolta, inclusive porque os aumentos salariais daquele ano já tinham sido minúsculos. Então, meus colegas, os mesmos que reclamavam dos bancários grevistas, começaram a falar em fazer protestos e greves.

É interessante observar, nesse exemplo, como as pessoas, em geral, estão preocupadas apenas em onde o seu calo aperta. Se o bancário precisa fazer greves para preservar seus direitos trabalhistas, isso não importa, o que importa é que eles estão atrapalhando, porém, quando é o meu direito que está em jogo a coisa muda de figura e as pessoas veem sentido em protestos e greves.

Ainda falando dos meus colegas dessa época, reclamações a respeito de ciclistas, ciclovias e corredores de ônibus que estavam sendo construídos eram comuns. Eles reclamavam que essas coisas roubavam o espaço das ruas que deveria ser ocupado pelos carros deles. Não se passava pela cabeça dessas pessoas que um automóvel particular ocupa muito espaço e que se todos os cidadãos da cidade utilizarem um para ir ao trabalho, não haveria espaço para ninguém se locomover. Tudo que eles conseguiam enxergar era a própria necessidade e conforto.

É só juntar as peças e perceber como o egoísmo e a falta de empatia tem levado nossa sociedade à ruína. Isso não é um problema apenas de hoje, mas que percorre toda nossa história, porém, estamos chegando na beira do precipício.


Uma coisa leva a outra

Então, chegamos na questão da saúde mental. Se as pessoas não conseguem se colocar no lugar do outro com relação a direitos trabalhistas, meio ambiente, ou com relação a transporte, se tudo que elas pensam é em seu próprio conforto, como vão tratar quem sofre de depressão, ansiedade e outros problemas psicológicos? A relação de causa e efeito está aí explícita.

Uma mãe que se incomoda com o ciclista ou o pedestre no trânsito, provavelmente é a mesma que vai negligenciar seu filho adolescente que sofre de depressão porque pensa que isso é frescura de jovem ingrato. Não vai pensar na dor que se passa dentro dele, mas apenas no incômodo que a condição dele gera em sua vida.

A falta de empatia nos impede de ouvir e de enxergar o outro, a necessidade dele não existe. O curioso é que a maioria das pessoas que não são empáticas aparentemente não tem consciência disso, elas acreditam que são e que o problema do mundo não tem necessariamente a ver com elas. Isso inclui, também, pessoas que sofrem com transtornos mentais.

Ter depressão, ansiedade ou alguma outra condição de saúde mental, não é garantia de ser mais empático. Na verdade, como podemos observar nos dados que eu trouxe lá em cima, grande parte das pessoas estão doentes e se todas elas fossem empáticas, provavelmente o nosso país não estaria nessa situação, não é mesmo?

A reflexão que proponho nesse setembro amarelo é essa: vamos enxergar além. Os sintomas nos comunicam, eles indicam que coisas precisam ser feitas, analisadas e desconstruídas. O fato de estarmos todos mentalmente doentes é apenas a ponta do iceberg de questões muito mais estruturais.

Você concorda comigo? Discorda? Deixe sua opinião nos comentários, vou adorar ler! Compartilhe este post com seus amigos, vamos juntos refletir sobre essas questões 😍


Tudo começa na falta de empatia (Setembro Amarelo)






Comentários

  1. Caramba, que texto e reflexão incríveis. Eu falei um pouco sobre isso no meu instagram para alertar o pessoal que é um problema muito maior do que conseguimos enxergar, ou queremos.

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  2. Muito interessante o seu post. Realmente, a falta de empatia é a raiz de muitos males e, infelizmente, a sociedade está cheia de exemplos assim, como as pessoas da história de seu post que reclamaram dos funcionários grevistas do banco, mas consideraram fazer a mesma coisa quando passaram por situações complicadas. Se tentássemos primeiramente entender os motivos das outras pessoas ao invés de julgar, acredito que as coisas seriam muito mais fáceis.
    Adorei ler o seu post.

    Abraços,

    FooDicas

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  3. Oi!
    Infelizmente os casos de suicídio cresceram muito.no país é por isso a campanha do setembro amarelo é muito importante é deve ser amplamente divulgada.

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  4. É muito bom ler coisas que nos fazem refletir... Infelizmente existe muita falta de empatia e infelizmente também apesar do setembro amarelo ser um evento muito importante, muitas vezes é usado de maneira ruins.

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    1. Tem muita gente que apoia só por likes, mas no resto do ano não tem empatia

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  5. Eu acho que muita gente nem sabe da existencia da palavra empatia e um outro tanto não sabe o significado. Mas o pior de tudo é quando a pessoa sabe da palavra, sabe o significada e ainda assim fica indiferente a tudo que acontece ao seu redor. Concordo contigo, o grande mal hoje em dia é a falta de empatia.

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  6. Olá!
    Eu vou concordar com você, as pessoas estão muito egoístas, aí com a falta empatia as pessoas fazem coisas que deixam as outras diminuídas, excluídas, daí você já sabe... Pessoas deprimidas que tomam atitudes extremas.
    Abraços

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    1. Acredito que a falta de empatia tem consequências negativas até mesmo para a pessoa que não é empática.

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  7. Boa noite, meu caro.
    Tema delicado e necessário...
    Eu tenho certas restrições quando apontam a falta de empatia como o real problema do mundo porque já é usado como meio de descobrir certos tipos de transtornos, como o de personalidade esquizóide e histriônica, por exemplo.
    Acho que a questão atual está mais centrada na solidão porque muita gente tem medo de ficar sozinho e nem sempre se dá conta de que já não tem mais ninguém em sua vida, isso é fatal. A consciência da solidão é um grande problema para a maioria das pessoas. Eu conheço muitas pessoas que entraram em depressão e ficaram a um passo do abismo.
    E não é fácil perceber os sintomas de uma depressão, até porque muitos não têm consciência do estado mental em que se encontram e como a sociedade tem seus padrões e valores (questionáveis) preferem, é melhor calar a se expor porque muitos ainda se preocupam com o que os outros pensam-dizem-sentem.
    Já reparou como as pessoas tem tempo para se ocupar da vida alheia? Mas essas mesmas pessoas não enxergam um quadro de depressão.

    bacio

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    1. Ah sim, mas a falta de empatia não necessariamente é uma questão patológica

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  8. Que post incrível e muito importante! Eu concordo com todas as questões que você levantou e infelizmente é isso, estamos em um momento que a falta de empatia com o próximo é algo gritante e muito triste. Não sei onde vamos parar.

    bjs

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    1. Talvez o mundo sempre tenha tido esse problema e por isso estamos chegando nesse patamar

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  9. Concordo uma coisa leva a outra...A falta de empatia é o grande problema, o corre corre do dia a dia também...Esquecemos de ouvir o outro e estamos tão acostumados a não ser ouvido que vamos nos calando...

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  10. Olá,

    Trazer essas questões à tona é muito importante, pois as pessoas precisam terem noção de como a falta de empatia e o egoísmo delas acabam afetando todos a sua volta e principalmente as cegando em relação as pessoas que precisam de ajuda. O Setembro Amarelo é uma campanha fundamental e que precisa de mais visibilidade. Adorei o post, parabéns!

    Beijos!

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    1. Concordo, decidi propor esse debate porque vejo muitas pessoas apoiando a campanha, mas que não tem consciência de que são parte do problema (ou dos problemas).

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  11. Concordo que estamos doentes. Na minha visão, o grande problema é que "aparentemente" quase todos os "tratamentos" envolveriam reduzir essa postura agressiva e competitiva que impulsiona tantos lucros, ou retirar-se de uma "roda de metas" que parece ( para muitos) uma grande engrenagem da sociedade que não pode parar, nem para a manutenção de seu "motor". Por sorte, vejo pessoas como você, debatendo e expondo coisas que instigam uma forma diferente de lidar com essa verdadeira epidemia .

    Parabéns pelo texto.

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  12. Olá!

    É importante esse mês para a conscientização de algumas pessoas, mas as vezes não passa de apenas um mês em que você faz textos incríveis a respeito e não faz nada pelo próximo.
    Eu acho que se as pessoas deixassem de olhar apenas para o seus próprios problemas e começasse a perceber um pouquinho mais do que ocorre ao seu redor, a taxa de suicídio seria bem menor.

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    1. Concordo, talvez muitos outros problemas seriam menores também.

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  13. Antes de qualquer coisa preciso de um minuto de indignação pelas pessoas que trabalhavam com você e eram CONTRA as melhorias na mobilidade urbana... Gente, a galera REALMENTE só olha pro próprio umbigo, né? A ponto de não perceber que todos os nossos "umbigos" interferem um no outro...
    Enfim!
    Concordo super com o que você falou, mas discordo um pouco do conceito de empatia - não o seu, o real mesmo. Pra mim a plena empatia é conseguir sentir a dor do outro SEM PRECISAR se colocar no lugar dele, sabe? É saber que o que aquela pessoa sente deve ser respeitado independente de poder ou não acontecer comigo também. Quando isso acontecer estaremos muito mais perto de conseguir, enfim, tratar a saúde mental da sociedade no geral, que definitivamente tem sido o mal da década de 10 e, pelo visto, permanecerá nos destruindo na de 20...

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    1. Ah sim, eu não quis dizer que para termos empatia a gente tem que carregar a dor do outro como se fosse nossa. O "se colocar no lugar do outro" que eu falei é mais no sentido de se imaginar no lugar dele e como se sentiria diante das situações que o ele passa.

      É um exercício bem difícil

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