Por que o ódio tem tanto poder?

(Imagem retirada da internet)

Ultimamente tenho estado bastante reflexivo sobre o comportamento das pessoas na internet, questões como a cultura do cancelamento e também sobre o crescimento de figuras políticas relacionadas ao discurso de ódio. Inclusive, já escrevi alguns textos sobre isso aqui no blog, como O ódio e o engajamento na internet (Reflexão)Tudo começa na falta de empatia (Setembro Amarelo), a minha análise sobre o filme Coringa (2019) e até mesmo meu post sobre a cantora Anitta.

É assustador imaginar que em 2020 estejamos presenciando tanta barbárie e o ódio esteja tão em voga. Ao ponto que até as pessoas engajadas em causas sociais utilizem suas pautas para promover linchamentos virtuais. De onde vem tanta agressividade? E, por que essa agressividade consegue provocar mover tantas coisas e engajar tantas pessoas?

Siga nas redes sociais: 👍 Facebook | 💬 Twitter | 📷 Instagram | 📌 Pinterest

De acordo com Freud em seu trabalho O Mal-Estar na Civilização (1930), a resposta está na natureza humana. Nós seres humanos possuímos naturalmente instintos, impulsos e pulsões relacionadas a preservação da vida, prazer, satisfação pessoal e multiplicação, mas também possuímos tendência a agressividade e destrutividade. De acordo com a psicanálise, a repressão de tais impulsos vem da necessidade de convívio social. Para que uma sociedade seja possível, é preciso que os cidadãos reprimam algumas de suas vontades.

Por exemplo, quando estamos irritados frequentemente podemos sentir desejo de cometer agressões físicas ou até mesmo homicídio, mas não podemos porque se todo mundo que tiver uma frustração na vida cometer um ato de violência, a sociedade viraria um caos. Às vezes podemos sentir desejo sexual por uma pessoa, mas não podemos passar por cima de seu consentimento para satisfazer esse desejo, do contrário estaremos cometendo um crime de violência sexual. Para que meu convívio com alguém seja possível, é preciso que eu contenha desejos que comprometam a integridade desse relacionamento. Assim nasceu a moral, a ética e o direito. Freud também propôs que temos a capacidade de deslocar alguns desses desejos para outras atividades físicas ou psicológicas que não provoquem prejuízos sociais, como uma pessoa que canaliza seus impulsos à violência no esporte ou na arte. Tal potencial foi chamado por ele de sublimação.

A constituição da civilização, portanto, vem da capacidade de pensar no bem comum e no interesse de construir relações em detrimento da satisfação de impulsos, bem como da de responsabilizar-se pelos próprios atos. Posso querer matar alguém e de fato cometer esse atentado, mas terei que me responsabilizar e responder criminalmente. O custo dessa responsabilidade é o que censura as pessoas.

O que possibilita o discurso de ódio é justamente o meio que isenta a responsabilidade e ainda endossa tal comportamento. Por exemplo, se todos ao meu redor estão fazendo piadas com uma pessoa trans que vive marginalizada sem que precisem se responsabilizar por isso, posso perceber este comportamento como aceitável e reproduzi-lo. Se todo mundo está cometendo linchamento virtual contra uma cantora ou blogueira que falou besteira sobre feminismo, lá vou eu estar escrevendo comentários violentos ou destruindo a vida de alguém acreditando estar fazendo a melhor coisa do mundo.

O ódio tem poder porque a destrutividade é da natureza humana, mas todos reprimimos. O discurso de ódio é sedutor porque ele é uma oportunidade de saciar tais desejos sem precisar se responsabilizar utilizando justificativas como a vítima da minha violência ser inferior a mim, ou ela estar transgredindo algum dogma moral, religioso ou ideológico.

Referências

  1. FREUD, S. (1930) O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
  2. FREUD, S. (1920). Além do Princípio de Prazer. Rio de Janeiro: Imago, 2006, p. 123-198. 



Comentários