A história da Turma da Mônica Jovem - Parte 3: Decadência


Sim, eu demorei quase um ano para dar continuidade a minha série sobre a história da Turma da Mônica Jovem. Toda vez que venho escrever no blog, eu me lembro da promessa. Acredito que toda essa procrastinação vem de uma pequena esperança, lá no fundindo do meu coração, de que a revista iria melhorar e eu não precisaria escrever um texto sobre ela estar decadente. Assim, poderíamos esconder toda essa segunda temporada na fanbase, fingir que nunca existiu e seguir. São quase três anos desde que a segunda série começou tendo sua primeira edição lançada em dezembro de 2016, de lá para cá passei por todos os estágios de luto: negação, raiva, depressão e aceitação.

Índice:


Pode parecer exagero e, até mesmo drama já que é só uma revista em quadrinhos, mas é preciso entender o contexto. Cresci com as obras do Maurício de Sousa, quando eu estava aprendendo a ler, meu pai comprava gibis da turminha e colocava debaixo do meu travesseiro. Eu gostava tanto que às vezes eu passava a madrugada lendo. Meu irmão morria de medo do escuro, então sempre dormíamos com uma luz noturna no corredor. Eu me deitava no lado oposto da cama para aproveitar essa iluminação para conseguir ler durante a noite.

Os anos foram passando, cresci e naturalmente fui deixando os gibis de lado já que eles eram muito infantis e eu sentia fome de ler coisas mais elaboradas. Lembro-me que as revistas da turma clássica tinham histórias bem curtas, em alguns casos de apenas algumas páginas. Parti para os gibis da Disney cujas histórias eram maiores, em alguns casos, divididas em partes, posteriormente no início da adolescência caí nas graças dos mangás japoneses, seguindo minha paixão pela nona arte.

Quando finalmente em 2008, fiquei sabendo da Turma da Mônica Jovem. Uma professora de um curso que eu fazia me mostrou a primeira edição que havia acabado de sair e ela havia comprado. Meus olhos brilharam de curiosidade, o design dos personagens estava muito legal e havia toda aquela promessa de unir o estilo turma da mônica com o estilo mangá, a febre da época. Rapidamente consegui convencer os meus pais a comprarem para mim e comecei a colecionar.

Vai dizer que eles não estavam estilosos? (Imagem retirada da internet)

Como já expliquei na primeira parte dessa série, o primeiro arco da revista possuía bastantes problemas de roteiro e percebi isso na época mesmo, por mais que tenha me divertido. Contudo, do segundo arco em diante a qualidade das histórias cresceu muito e se manteve durante a maior parte da primeira temporada que durou 100 edições, quase uma década. O ápice foi a Supersaga do Fim do Mundo, que explorei na parte 2.

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Durante minha adolescência, muitos amigos e colegas de escola faziam piadas comigo por curtir Turma da Mônica Jovem. Eles falam que não era mangá de verdade, que era tosco e que eu não tinha critérios. Esses argumentos tinham um certo teor de síndrome de vira-latas já que debochavam da série principalmente por ser uma revista brasileira. De fato, TMJ não era mangá, era uma revista nacional fortemente inspirada pelos quadrinhos asiáticos. Até mesmo porque Maurício de Sousa era amigo de Osamu Tezuka, o Walt Disney japonês e um dos artistas mais influentes na história dos animes e mangás.

O problema é que com o tempo, fui me cansando de me defender de tantos ataques. Passei a ter vergonha de quem eu sou, dos meus gostos e paixões e, como reflexo, parei de consumir TMJ. Ela me lembrava da minha versão jovem e "trouxa" da qual eu queria me afastar, esconder e fingir que nunca existiu.

Claro que não estou falando exclusivamente da revista, mas de tudo o que eu representava. Eu sempre fui apaixonado por videogames, até já publiquei bastante conteúdo sobre isso no blog, mas meus pais e os adultos que me cercavam sempre reprovavam essa minha paixão. Os mesmos adultos também faziam pouco caso do meu interesse por mangás e pela cultura japonesa. Quando eu era criança, eu já adorava música pop e gostava de artistas como Rihanna, Britney Spears, Lady Gaga, Madonna, em sua maioria, mulheres, e as pessoas debochavam de mim porque eu deveria gostar de coisas de "macho". Também sempre fui apaixonado por artistas e bandas de pop rock do início dos anos 2000, como Avril Lavigne, Blink 182, Paramore e Green Day, e as pessoas debochavam novamente porque isso era coisa de "emo". Além de inúmeras insinuações a respeito da minha sexualidade desde que me entendo por gente porque eu era pacífico demais para um homem, delicado demais, tinha letra bonita e gostava de ler (pois é).


Quando você ouve de todos os lados, seja dos adultos, seja dos amigos e colegas, que você é uma pessoa que deu errado e que você deveria ser diferente, é bem fácil começar a se perguntar se eles não têm razão e começar a se odiar. Então, fui perdendo minha identidade. Se afastei de coisas que eu gostava, passei a imitar o comportamento de outros jovens, como falar mais palavrão, etc, uma verdadeira crise existencial e de identidade que durou vários anos com várias fases. Uma delas foi a constatação de que eu não poderia ser feliz.

Tudo que eu gostava ou me deixava feliz, era reprovado. As coisas que eu gostava de ler, as músicas que eu queria escutar, os assuntos que eu queria aprender, os hobbies, até mesmo os gêneros que me atraem sexual e afetivamente. Cheguei a conclusão que eu deveria me contentar com uma vida sem prazer, porque, afinal, não tem como melhorar, não é mesmo? A vida é essa coisa cinza mesmo, esse prato de arroz branco sem sal de dois dias atrás que parece tijolo e tem gosto de morte. Essa dinâmica me levou para um quadro clínico de depressão que posteriormente a um diagnóstico de transtorno bipolar e aqui estamos nós 😑.

Felizmente, esse não foi o final da história. A partir daí, comecei a percorrer um longo caminho de reencontrar a minha identidade e o que me faz feliz. Nessa jornada, revisitei antigas paixões que havia abandonado, entre elas a Turma da Mônica Jovem. Terminei de ler toda a primeira temporada, haviam dezenas de edições que eu ainda não havia lido, incluindo as da supersaga. Me apaixonei por completo ao ver como as histórias haviam evoluído ainda mais, foi como encontrar um amigo de infância depois de muitos anos e descobrir coisas novas que ele viveu quando você não estava por perto. Nesse caso, eram vários amigos, todos os personagens queridos que me acompanham desde criança, quando descobri a leitura e a paixão pelos quadrinhos.

Para melhorar, descobri que a primeira temporada seria republicada novamente em encadernados contendo de 2 a 3 edições por volume e que a segunda temporada havia começado há poucos meses reiniciando os números. Foi a oportunidade perfeita para voltar a colecionar, mas também foi aí que esses sentimentos gostosos de nostalgia, felicidade e novidade foram ficando para trás sendo substituídos por frustração.

Ah, a segunda temporada...

(Imagem retirada da internet)

Nada descreve melhor a queda de qualidade da Turma da Mônica Jovem que essa imagem. Uma revista que tinha ação, aventura e até mesmo terror foi reduzida a histórias bobas do cotidiano extremamente fracas. Sim, na primeira temporada tínhamos muitas histórias do cotidiano, vida escolar e relacionamentos, mas elas eram bem criativas e orgânicas. As relações entre os personagens pareciam mais naturais, eles tinham conflitos e desenvolvimento.

Não começou nesse nível, as primeiras edições da segunda série foram bem chatas, mas elas ainda tinham capas e artes de miolo bem bonitas. Com o passar dos meses, até isso começou a ficar desleixado. Resolvi parar de comprar, tanto por questões financeiras, quanto por perder as esperanças de que isso seria apenas uma fase e que eventualmente as coisas voltariam a ser boas como antes, mas até chegar a essa conclusão, eu li dezenas de edições medíocres totalmente dispensáveis. Um ponto que também desagrada os fãs é a inclusão de novos personagens rasos que não acrescentam nada nas histórias.

A segunda série é uma verdadeira apatia, o título dessa história chega a ser irônico.
(Imagem retirada da internet)

Como se não bastasse, a Supersaga do Fim do Mundo entrou em um hiato interminável. A última edição foi a 99 da primeira temporada, desde então já tivemos mais de 40 edições da segunda série, nenhuma delas dando continuidade a essa história! A insatisfação dentro das comunidades de fãs é generalizada, várias pessoas que conheço pararam de comprar as novas edições. Para piorar, houve vários aumentos de preço e atualmente as edições custam R$ 11,00!

No segundo ano dessa temporada, a Panini e a MSP deram um sinal de que estavam ouvindo os fãs e publicaram o que seria a única saga da segunda série: O Portal das Trevas. Com roteiro de Wagner Bonilla, esse arco de duas partes (edições 14 e 15) foi tudo o que os fãs mais desejavam: uma história sombria repleta de aventuras, elementos de terror e com arte incrível (tanto de capa, quanto de miolo). O protagonista é o Cascão estrelando um novo penteado moicano super estiloso, outra novidade bem-vinda já que muitas vezes ele e a Magali são tratados quase como personagens secundários em detrimento da Mônica e do Cebola. O foco dessa história também foi a amizade entre o Cascão e o Cebola, trazendo também a profundidade e desenvolvimento de personagem presente nas histórias da primeira temporada. Para ficar ainda melhor, essa história pertence a outra supersaga dentro do universo da Turma da Mônica Jovem e Chico Bento Moço chamada Supersaga SAVERT cujo arco mais famoso é Zona de Contágio, saga mais aclamada da CBM!

Cascão de moicano é a minha religião. (Imagem retirada da internet)

Demonstração da qualidade da arte do miolo dessas edições.

A história possui tom sombrio inspirado por filmes de terror como o clássico Poltergeist.



Na época que essa saga foi anunciada, eu me lembro que até canais do Youtube sobre TMJ que estavam há milênios sem publicar conteúdo fizeram vídeos novos sobre as edições. Os grupos estavam borbulhando, foi praticamente um acontecimento dentro da fanbase, todo mundo estava feliz que a revista havia voltado a ter qualidade. O problema é que não durou muito já depois tivemos mais uma porção de edições ruins e a Supersaga SAVERT não teve continuidade, entrando para o limbo com a Supersaga do Fim do Mundo.

Sendo franco, eu não sei qual o estado da revista no momento. Pode ser que ela tenha melhorado, pode ser que tenham publicado mais sagas e histórias de aventura, talvez a arte tenha ficado melhor. A questão é que eu não compro novas edições a meses e dentro dos grupos que eu frequento de TMJ, não vejo ninguém empolgado com as novas histórias, o que não me faz ter ânimo de dar uma nova chance agora.

A situação começou a ficar mais complicada quando fanpages e canais do Youtube focados de fãs começaram a encerrar as suas atividades. Um dos casos mais tristes é o da Turma da Mônica Brasil, antigamente chamada de "Turma da Mônica Jovem Brasil":

NOTA DE ENCERRAMENTO Desde a "era dos blogs", nos primórdios da Turma da Mônica Jovem, passando pelo Facebook e...
Publicado por Turma da Mônica Brasil em Quarta-feira, 16 de outubro de 2019



O fim das sagas e outras mudanças editoriais

Um dos problemas estruturais da segunda série é o fim das sagas. A estrutura da primeira temporada consistia em várias histórias independentes que poderiam abranger de uma a três edições, com exceção da primeira saga, 4 Dimensões Mágicas, que teve quatro partes. Já na segunda série, as histórias obrigatoriamente devem ser contadas em apenas uma edição, com exceção de O Portal das Trevas que é a única história de duas partes (até onde eu acompanhei e tenho conhecimento). Ao que tudo indica, essa decisão foi tomada porque supostamente as sagas desestimulariam novos consumidores já que as pessoas não iriam ter interesse de comprar uma edição de uma história que já está no meio.

Outro detalhe é que o relacionamento entre o Cebola e a Mônica voltou a ser o foco. Na primeira temporada os dois tiveram idas e vindas e a Mônica chegou a se envolver afetivamente com o Do Contra. O motivo, provavelmente, é porque as edições mais populares da primeira temporada envolvem o relacionamento da Mônica e do Cebola, como as edições 4, 34 e 50.

Edições mais vendidas da primeira série eram focadas no relacionamento entre Mônica e Cebola.
(Imagem retirada da internet)

O problema é que tais mudanças visam primeiramente o dinheiro e não a qualidade e ao fazer isso, tiraram a alma da revista. Essas edições da primeira série que fizeram sucesso eram realmente boas, em especial a edição 34, o relacionamento entre os dois era retratado de forma orgânica e se desenvolvia no decorrer de várias edições, além de não ser um tema saturado. Em contraste, na segunda série eles parecem um casal de uma novela adolescente ruim sem qualquer profundidade.

E de que adianta proibir as sagas porque elas reduzem a possibilidade de novas pessoas comprarem a revista se no final, a qualidade das histórias não vai ser boa o suficiente para estimular essa pessoa a continuar consumindo? Eu não faço ideia do quanto a TMJ esta vendendo atualmente, mas certamente ela não é mais tão popular quanto foi na primeira série. Não vejo crianças e adolescentes de hoje em dia com tantas opções de entretenimento querendo consumir uma revista com histórias tão fracas e esquecíveis…

Ainda há esperanças!

O roteirista Emerson de Abreu, responsável pela aclamada Supersaga do Fim do Mundo que está em hiato há 3 anos confirmou que voltou a escrever para a TMJ através do seu Instagram pessoal!




Esperei tanto tempo que nem acreditava mais que ele iria retornar. Talvez eu volte a comprar TMJ quando essas histórias saírem. Só nos resta aguardar.

Conclusão

Demorei, mas terminei. Essa foi a parte mais difícil de escrever e, por isso procrastinei tanto. É triste ver uma revista que já foi tão boa e que é tão especial estar nesse estado terrível porque os responsáveis parecem não se importar muito com o que os fãs dizem. O que parecia ser uma fase passageira já dura eternos três anos.

Nesse sentido, é interessante ver a influência do filme do Sonic na indústria. A Paramount Pictures e a Sega ouviram os fãs e trocaram o design do personagem, agora várias empresas estão dando mais ouvidos ao público, como a Warner/DC que irá lançar a versão de Liga da Justiça do Zack Snyder.

Você acompanha Turma da Mônica Jovem? O que você acha dessa fase conturbada da revista? Deixe sua opinião nos comentários, bora debater! 😊


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Conheça também o meu outro blog focado em conteúdos sobre a franquia Sonic the Hedgehog.

Comentários

  1. teria mais exíto já que os desenhos se parecem com Mangás, que fizesse deles um Hentaí...

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