Desisti da psicologia?

Imagem retirada do site Pixabay.

Olá! Estou há quase dois meses sumido, mas espero que vocês não tenham se esquecido de mim. Um dos motivos desse sumiço é que comecei a estudar e me dedicar a algumas coisas diferentes e não sobrou tanto tempo e energia para vir escrever no blog. Essas novas experiências também tem influenciado a forma como eu enxergo meu trabalho aqui, estou em um processo de analisar e refletir como eu quero continuar com o blog.

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Eu não sei se alguns de vocês me acompanham há muito tempo, mas esse blog começou como um espaço em que eu publicasse reflexões e pensamentos principalmente a respeito da minha condição como portador de transtorno bipolar. No entanto, já faz mais de um ano que o blog existe e mais de três anos da fanpage. Durante esse percurso, eu mudei bastante e a minha relação com meu transtorno também. Percebi que não faz mais sentido para mim falar sobre a minha condição o tempo inteiro, como único e principal assunto, portanto menos sentido ainda ter um blog dedicado a isso.

Na época que eu criei a fanpage, eu girava em torno do meu diagnóstico, era como se ele resumisse quem eu sou. Eu também me sentia um peso para as pessoas, então quando eu conhecia alguém, seja amizade ou paquera, eu já ia avisando as pessoas dos meus problemas psicológicos como uma espécie de alerta de onde a pessoa estaria se metendo: "cuidado surtado".

Os anos foram passando e eu fui amadurecendo, adquirindo autoestima e também descobrindo outras coisas sobre mim, revivendo paixões antigas. Comecei a me interessar pela área de saúde mental e psicologia. Até cheguei a fazer testes psicológicos vocacionais e eles apontavam que eu tinha aptidão para trabalhos sociais e na área da saúde. Isso me motivou ainda mais nesse sonho. Comecei a estudar psicologia e psicanálise como autodidata almejando um dia me formar em psicologia e me tornar psicoterapeuta. Nunca escondi a minha preferência pela psicanálise enquanto abordagem.

Nesse processo, o foco do blog deixou de ser a minha condição de bipolar para se tornar um ambiente de conteúdos e reflexões sobre saúde mental, psicologia e psicanálise. Publiquei vários textos técnicos desde sobre teorias ou teóricos da psicologia a até transtornos e condições psíquicas. Eu tinha plenas convicções de que esse era o caminho que tinha escolhido para minha vida.

O problema é que o tempo foi passando e eu também fui mudando a minha relação com esses assuntos. Conforme fui estudando e aprendendo, adquiri senso crítico sobre algumas questões que envolvem tratamentos e saúde mental. Eu percebi que os posts mais visualizados do blog eram os que eu escrevia sobre transtornos e diagnósticos específicos, enquanto textos que focavam em reflexões sem se basear em nenhuma condição, não recebiam tanta atenção. Acabei me dando conta de que nos conteúdos que eu escrevia no começo do blog, eu colocava a minha hipocondria e obsessão com diagnósticos e termos técnicos e percebi que os textos mais visualizados do blog eram justamente esses porque as pessoas de modo geral são assim.

Contribuindo também para essa minha crise existencial, descobri que alguns livros que eu utilizava como referência não eram exatamente de qualidade. Como os livros da Dra. Ana Beatriz. São conteúdos muito sensacionalistas que tratam dos transtornos e diagnósticos de forma rasa e talvez até questionável do ponto de vista ético. Também passei a refletir de modo crítico a respeito de influenciadores que eu acompanhava que também focam muito em conteúdos sobre saúde mental, bem-estar e autoestima. O conhecimento que eu fui adquirindo ao estudar psicologia me fez perceber problemas em alguns discursos.

A grande questão é que o intuito do blog era publicar conteúdos e reflexões que eu acreditava que estavam ajudando outras pessoas e tudo isso perde o sentido se eu começo a enxergar problemas nesses conteúdos e eu não acredito mais que são conteúdos de qualidade. Hoje eu enxergo as questões de saúde mental de modo muito mais amplo e complexo, consigo ver o quão negativo é essa obsessão por diagnósticos e o quanto isso pode desviar as pessoas de trabalhar as suas questões de modo produtivo.

Então, eu comecei a receber convites de entrevistas sobre o blog e sobre temas de saúde mental e eu percebia que as pessoas estavam me enxergando como uma autoridade ou alguém cuja opinião fosse modelo a ser seguido. Eu cheguei a rejeitar algumas dessas entrevistas ou insistir que eu fosse entrevistado como paciente não como um profissional de saúde mental ou algo do tipo.

Mas e o sonho de ser psicoterapeuta, como é que fica? Bem, eu não exatamente desisti desse sonho e eu não perdi o interesse pela área da psicologia e sobretudo psicanálise. Contudo, eu também comecei a me interessar por muitos outros assuntos e outras áreas que eu também tenho afinidade, como artes visuais.

Eu sempre gostei de arte. Quando eu era pequeno, eu adorava desenhar, também gostava de escrever. Eu costumava falar que eu queria ser desenhista ou escritor quando eu crescesse. Uma série de fatores foram me afastando e desiludindo desses sonhos. Cheguei a escrever sobre isso em outros posts inúmeras vezes.

Quando eu comecei a fazer o meu tratamento psicológico, eu estava trabalhando em uma empresa de auditoria. Usava terno o dia inteiro e ficava fazendo planilhas no Excel. Eu tinha me formado em gestão financeira e estava com o objetivo de fazer outra graduação em contabilidade. O problema é que eu não me enxergava em nenhuma dessas coisas, nunca gostei de utilizar roupa social todo dia. Eu não gosto de finanças e mercado financeiro, estar trabalhando com auditoria financeira para um banco era uma coisa totalmente sem sentido para mim. Eu estava trabalhando para revisar as informações contábeis de uma instituição que é uma das responsáveis pelos problemas sociais do meu país, para que essas informações estejam corretas para que acionistas ricos possam consultar e saber se vale a pena continuar investindo seus dinheiros nela.

Isso é praticamente o oposto do que os testes vocacionais falavam sobre mim, uma pessoa com aptidão para trabalhos sociais, ou seja, que envolvam impactos sociais positivos. Trabalhar em ONGs, na área da saúde, etc. Assim que cheguei em psicologia.

Sempre que eu ia para a terapia, minha psicóloga me perguntava: "Rapha, o que te da prazer? O que te deixa feliz?". E eu sempre falava que eu gostava de desenhar, ou que eu queria aprender a cantar porque adoro música. Eu sempre citava atividades artísticas e eu acho que a conclusão de tudo isso é que eu também sempre me interessei por psicologia porque assim como a arte é algo que envolve sensibilidade e eu sou uma pessoa sensível até demais.

Eu não lembro exatamente em qual obra, mas se não me engano Sigmund Freud já disse que o nosso pior defeito também é o que faz a nossa melhor qualidade. Eu sou uma pessoa extremamente sensível e isso é ruim em alguns aspectos porque eu sofro muito, eu me afeto muito por coisas que talvez a maioria das pessoas não se afete. Talvez isso explique porque acabei desenvolvendo esses transtornos e problemas psicológicos, porque tive problemas com pânico, depressão e ansiedade. No entanto, ser sensível também me tornou uma pessoa mais empática. Eu consigo perceber que estudando psicologia já observo que eu tenho uma escuta diferente da das outras pessoas e que se eu investisse nisso, provavelmente me tornaria um bom terapeuta. Também percebo que essa minha sensibilidade excessiva também é o que me torna alguém que gosta tanto de arte, de música. Que sentiria prazer em aprender a cantar e dançar, pintar um quadro ou escrever poemas.

Não, eu não desisti da psicologia, nem do blog, porém, eu não tenho mais certeza se o meu sonho ou o caminho que eu quero seguir para a minha vida agora é me tornar psicólogo. Não porque a minha paixão ou interesse pela psicologia diminuiu, mas, porque agora ele esta disputando com esses meus outros interesses artísticos. Talvez eu curse artes visuais ou artes gráficas, também eu faça letras. Realmente não sei, mas o gostoso de viver é não ter certeza de tudo.

Em relação a minha crise existencial a respeito dos conteúdos antigos do blog, bem, eu não teria essa visão mais crítica e aprofundada a respeito do assunto se eu não tivesse estudado, discutido e praticado ao produzir todos esses textos. Portanto, apagar eles seria como apagar o meu processo de aprendizado e crescimento. No máximo, irei atualizar alguns posts que considero que perderam o sentido adicionando uma observação no início e de agora em diante vou escrever e produzir conteúdos que eu acredito serem mais úteis. Também pretendo fazer algumas modificações no banner e no visual do blog porque agora estou praticando desenho e consigo fazer coisas mais bonitas. Espero que continuem comigo! 😉


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