Cuidado com o influenciador com síndrome de messias (Reflexão)

(Imagem retirada do site Pixabay)

Falar sobre saúde, bem-estar e autoestima é um assunto bastante em voga ultimamente e isso é extremamente positivo. Se antigamente saúde mental era tabu, hoje as pessoas estão se sentindo mais confortáveis para expressar suas dificuldades e buscar ajuda. Muito provavelmente por isso que a procura por cursos de psicologia tem ficado cada vez mais alta. Na USP (Universidade de São Paulo), o curso de psicologia já é o segundo mais concorrido, perdendo apenas para medicina.

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Contudo, essa procura também ocasionou o crescimento de fenômenos como o coachinga indústria de livros de autoajuda e também os influenciadores, ou gurus modernos, buscando monetizar em cima das demandas emocionais da população. Sobre este último grupo que eu quero refletir hoje.

Acredito que o meu próprio blog é um reflexo dessa tendência. Ao ser diagnosticado com transtorno bipolar e por influência de outros blogueiros e youtubers que eu acompanhava, passei a me interessar por saúde mental, a produzir conteúdos sobre o assunto e a ter o sonho de ser psicólogo ou psicoterapeuta. Todavia, conforme fui me aprofundando em estudar psicologia eu fui descobrindo coisas novas e o conteúdo do blog foi passando por várias transformações que já relatei em alguns dos posts anteriores.

Vocês devem estar se perguntando, o que seria síndrome de messias? Eu escolhi esse termo me baseando nesses influenciadores e na minha vida pessoal, em comportamentos que eu já apresentei, só depois que eu descobri que ele de fato existe dentro da área. De acordo com Raquel Baldo, psicóloga do portal Minha Vida, de forma bem resumida, complexo ou síndrome de messias se refere a um estado psicológico em que a pessoa se considera extremamente importante ou relevante dentro do meio em que vive e que os conceitos, conselhos, opiniões e posicionamentos dela são extremamente importantes e relevantes para a vida dos outros. Um detalhe interessante e importante é que as verdades propagadas pelo indivíduo com complexo de messias são sempre embasadas na sua própria vivência e experiência pessoal, mesmo que ele se apoie em teorias e pesquisas. Apesar do nome, não se trata de um comportamento observado apenas em pessoas praticantes de alguma religião.

Podemos considerar que esse tipo de comportamento tem relação direta com o narcisismo já que a pessoa superestima a sua importância dentro de um meio, no mundo e na vida de pessoas que as cercam. Para a psicanálise, narcisismo é uma etapa importante do nosso desenvolvimento psíquico infantil e se trata, portanto, de uma questão psíquica primitiva, no sentido de estar relacionada a nossa infância. No período denominado narcisismo primário, a criança acredita que o mundo, incluindo os seus pais, são uma extensão dela mesma e servem às suas necessidades e desejos. A partir do período descrito por Lacan como estádio do espelho que a criança começa a perceber que o mundo também é composto de outras pessoas e que estas não vivem e não giram em torno das necessidades dela.


Eu acredito que eu já apresentei esse tipo de comportamento durante a minha adolescência e começo da vida adulta, talvez até no começo do blog. Assim que eu comecei a pesquisar sobre problemas sociais, passei a ser militante engajado que problematizava tudo e todos. Eu me sentia o verdadeiro justiceiro social, paladino dos pobres e oprimidos, que de discussão em discussão mudaria o mundo. Quando comecei a me envolver e produzir conteúdo sobre saúde mental, eu pensava que os posts que eu escrevia eram de extrema importância e sempre que alguém me pedia ajuda, eu mandava os links acreditando estar fazendo a melhor coisa do mundo. Não era maldade, era imaturidade. Eu realmente acreditava que eu estava ajudando tudo e todos.

Eu tive um verdadeiro choque de realidade graças a algumas experiências envolvendo relações interpessoais. Conflitos no meu relacionamento em que eu tentava ajudar o meu parceiro com questões dele, sem ter resolvido as minhas. Envolvimento com uma pessoa que tinha transtorno de personalidade borderline, outra condição séria, em que eu tentava ajudar, mas mais atrapalhava que ajudava, porque afinal, eu também possuo uma condição séria e ainda estou tratando. A síndrome de messias é uma mistura de narcisismo com onipotência. Nos achamos capazes de salvar as pessoas, não enxergamos nossas limitações, não enxergamos que às vezes podemos é estar atrapalhando.

A vida, o estudo e a minha análise pessoal foram me ensinando que as coisas não funcionam dessa forma, que nós não somos tão importantes e essenciais na vida das pessoas, nem se tivermos muito conhecimento e experiência. Isso não é uma coisa ruim, isso não significa que nós somos um nada que não faz a diferença, isso só nos faz perceber que não somos super-heróis para tentar carregar o mundo nas costas.

E onde entram os influenciadores? Bem, existem muitos que apresentam esse perfil, mesmo depois de anos. Eu acho até que esse meio da internet e militância é um ambiente bastante propício. A partir do momento que você é influenciador grande, você tem uma legião de seguidores para te aplaudir e massagear o seu ego. Isso pode levar as pessoas para um caminho em que elas não questionam mais se elas estão realmente tão certas assim. Será que elas podem tanto? Será que elas realmente são tão poderosas que são capazes de aliviar o sofrimento de tantas pessoas quanto elas acreditam? O problema é que essa ilusão de onipotência pode trazer consequências desastrosas para as pessoas que consomem o conteúdo desses blogueiros e youtubers e acabam sendo convencidas pelo discurso deles.

Um bom exemplo disso é a influenciadora Alexandra Gurgel responsável pelo canal Alexandrismos do youtube que possui quase meio milhão de inscritos. Alexandra produz conteúdo sobre saúde mental, autoestima, gordofobia, body positive e transtornos alimentares. Cheguei a acompanhá-la por vários anos, mas me desinscrevi de seu canal há um tempo quando comecei a estudar psicologia e perceber algumas inconsistências em seus discursos.

Alexandra se tornou autora de livros de autoajuda e foi alvo de uma polêmica no início desse ano. Em seu Instagram, respondendo pergunta de seus seguidores nos stories, uma mãe a pediu ajuda relatando que tem problemas de autoestima e percebeu que sua filha está sendo influenciada por isso e desenvolvendo bulimia. Ao respondê-la, Alexandra fez propaganda de seu livro de forma irresponsável, como pode ser observado no print abaixo:


Esta influenciadora em especial é o perfeito exemplo do que venho descrevendo aqui. Ao assistir alguns de seus vídeos mais recentes, podemos perceber o quanto ela utiliza a narrativa da sua própria experiência pessoal ao propagar os seus conselhos sobre saúde mental e autoestima para logo em seguida recomendar a compra do seu livro que parece ser a palavra da salvação em um discurso quase religioso.

O problema é que Alexandra não possui nenhum treinamento em tratamentos para transtornos alimentares ou obesidade, ela não possui qualificações em psicologia, medicina, educação física ou nutrição. Ainda assim, ela acredita que a sua experiência de vida é uma coisa extremamente importante e que pode salvar a vida de uma mãe e uma filha com transtornos alimentares severos. O preço dessa onipotência pode ser muito alto para as pessoas que caem nesse discurso e adquirem os livros de autoajuda ao invés de procurar um profissional devidamente qualificado.

Ainda em relação a onipotência, é sabido dentro da área de psicologia e psicanálise que uma pessoa não consegue ajudar outras pessoas a superar problemas que ela também possui, mas ainda não resolveu dentro de si mesma. O código de ética do psicólogo, inclusive, recomenda que o psicoterapeuta encaminhe o paciente para outro profissional caso esteja passando por esse tipo de situação. Portanto, Alexandra não é uma pessoa adequada para instruir pessoas com essas demandas emocionais, mas não se dá conta disso. Ainda que em seu coração ela acredite estar fazendo uma coisa boa. É importante enfatizar que boas intenções não justificam um comportamento que pode ser prejudicial a milhares de pessoas que consomem seus conteúdos.


Tome muito cuidado com os conteúdos de autoajuda que você consome. Infelizmente, a maioria não possui embasamento teórico, ética ou seriedade. Também tome cuidado com os youtubers que você acompanha. Se tiver passando por sofrimento psíquico, emocional ou qualquer outro problema de saúde física, ou mental, procure um profissional devidamente qualificado para te atender!

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