His Dark Materials, repressão da sexualidade feminina e incels

His Dark Materials HBO/BBC
(Imagem retirada da internet)

Olá, queridos. Estou há alguns meses sumido do blog, mas quem é vivo sempre aparece. O motivo é que tenho gastado minha energia com outras coisas, me dedicado a outras paixões que cultivo. Nesse ano conturbado de pandemia, estou desde Março em quarentena, então acabei tendo que encontrar algumas distrações.

Entre elas, praticar ioga e atividades físicas em casa, praticar desenho, estudar, ler e jogar. Agora estou às vésperas de abrir um novo negócio para me sustentar porque estou sobrevivendo de economias e auxílio emergencial que não vão durar para sempre. Me desejem sorte.

No entanto, continuo sendo a pessoa contemplativa e reflexiva de sempre e muitas vezes me faltam lugares ou pessoas para compartilhar meus pensamentos malucos, nessas horas volto a escrever. A reflexão de hoje tem a ver com amor, relacionamentos, feminismo, machismo, incels e a série da BBC/HBO His Dark Materials. Como eu juntei todas essas coisas? Pegue uma xícara de chá ou café e continue lendo porque a brisa é longa.

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Esses dias eu estava perambulando pelo Youtube quando eu recebi uma recomendação de um vídeo bastante inusitado da comunidade incel. Já mencionei essa comunidade brevemente no meu post sobre o filme do Coringa. O termo que é uma abreviação de "celibatários involuntários" é frequentemente atribuído a uma comunidade majoritariamente composta por homens heterossexuais que possuem dificuldades de encontrar parceiras afetivas e criam teorias para explicar esse "fenômeno". Como a de que seria culpa das feministas ou a de que as mulheres são incapazes de amar, pois, seriam hipergâmicas por natureza.

Obviamente eu não sigo nem concordo com essa corrente de pensamento, mas essa visão de mundo me é tão absurda que acabei assistindo o vídeo e passei vários minutos consumindo conteúdos sobre filosofia incel como se eu fosse redator do Globo Repórter e teria que fazer um episódio do programa sobre eles.

Hipergamia é um conceito sociológico observado em algumas culturas de pessoas se casarem com outras de uma classe social ou casta superior para ascender socialmente ou garantir boas condições de vida para sua família. O conceito de relacionamento conjugal por amor é uma ideia relativamente recente na história da humanidade, antigamente e ainda hoje em muitos países se tratam de relações baseadas em interesses financeiros ou políticos que envolvem dotes e o restante da família.

Teoria dos incels
Como a hipergamia funciona de acordo com os incels. (Imagem retirada da internet)


O que os incels alegam é que todas as mulheres seriam naturalmente hipergâmicas, no máximo algumas escapariam dessa regra. Uma teoria que eles chamam de "pilula vermelha" (The Red Pill) como uma clara referência ao conceito filosófico popularizado no filme Matriz em que ao tomá-la, o protagonista se desprenderia da ilusão e enxergaria o mundo como ele realmente é, uma realidade dolorosa e cruel. A realidade nesse caso é a de que nenhuma mulher seria capaz de amar de verdade, todas escolheriam estrategicamente e instintivamente os seus parceiros com base no que de melhor eles possam prover a elas e a sua prole, mesmo que inconscientemente. De acordo com essa tese, o amor real estaria direcionado aos filhos não ao marido em si que seria só um pobre coitado sendo utilizado como massa de manobra (insira uma música dramática de fundo). Portanto, eles alegam que a liberdade sexual feminina seria ruim porque elas estariam tendo muito mais poder de barganha e oferta de homens, as tornando mais voláteis e infiéis. De forma resumida, eles encaram as mulheres como predadoras sexuais infiéis perigosas que precisam ser domadas.

Não me surpreende que muitos rapazes caiam nessa conversa, são argumentos bem sedutores e convincentes. Até porque juntam teorias, livros e pesquisas supostamente científicas para atestar sua validade. Contudo, enquanto eu incrédulo contemplava tais vídeos, me surgiram muitos questionamentos, problematizações que eu queria levantar aqui. Além de fazer alguns paralelos históricos e com alegorias apresentadas na série His Dark Materials da BBC/HBO adaptação de uma trilogia de livros homônima do autor Philip Pullman que foi publicada no Brasil com o nome de Fronteiras do Universo.

Relacionamentos baseados em poder

A primeira coisa que me chama atenção é que as dinâmicas de relacionamento descritas por esses youtubers incels são baseadas em poder. Como se o mundo dos relacionamentos fosse um verdadeiro mercado afetivo e sexual. Para que no final do dia todos fiquem felizes, as pessoas precisariam abrir mãos de liberdades para que tudo fique equilibrado através da distribuição igualitária do sexo. Assim como a felicidade dos homens está na capacidade de ser o provedor e ter poder de barganha para domar a suposta fera feminina. Uma espécie de marxismo em que o capital é o sexo e as mulheres são os meios de produção 👀. 

Em um determinado momento eu enxerguei nesses rapazes a figura da madame antipetista de classe média alta frustrada porque hoje em dia precisa ela mesma limpar a casa já que manter uma emprega ficou caro graças aos direitos trabalhistas. Ou seja, para eles o mundo era melhor antes que as mulheres eram menos emancipadas porque elas eram mais 'baratas' no mercado de relacionamentos. Apenas ser homem já garantia uma boa vantagem nessa disputa já que as mulheres não tinham tantas oportunidades de trabalho e acabavam tendo como uma das poucas formas de sobrevivência serem boas esposas. Os argumentos deixam escapar a visão de que a mulher não pode ser colocada em posição de igualdade de direitos e oportunidades.

Outro ponto é a naturalização das dinâmicas heterossexuais e de todos os relacionamentos serem no fim construídos com base na procriação. Esse discurso faz parecer que a homossexualidade, por exemplo, não seria natural. Como vocês bem sabem, eu me considero bissexual e eu tenho um histórico de me relacionar bem mais com homens do que com mulheres. O motivo não é porque me sinto mais atraído por um gênero, mas sim porque estou mais inserido nesse meio e a minha experiência adentrando o meio de paquera hétero sempre resulta em questionamentos inusitados (que não cabe aqui).

Relacionamentos como disputa de poder


A questão é que eu já percebi essas dinâmicas de poder em vários relacionamentos que eu já tive com outros homens, também já percebi tais dinâmicas em relacionamentos entre amigas e conhecidas lésbicas. Inclusive, já publiquei um texto sobre o caso de um rapaz que se apaixonou por mim e me enxergou como um completo perverso degenerado porque eu não era submisso a ele. Nesse exemplo, a pessoa enxergava minha liberdade ou autonomia como desamor, como se amar fosse me podar para que ambos ficássemos em uma situação ilusória de maior controle dele sobre mim.

Em setembro agora eu completei 26 anos, ainda me considero bem jovem, mas parece que no meio gay, essa faixa etária já se aproxima da data de validade em que você deixa de ser carne fresca no mercado sexual-afetivo. Eu não aparento ter essa idade, talvez por falta de barba, e a maioria dos caras que se aproximam de mim com interesses de paquera são mais velhos e se surpreendem quando descobrem que eu não tenho 18 ou 19 aninhos. Quando você passa dos 30 anos, para você ser desejado dentro do meio, você precisa ser alguém com uma condição financeira estável.

Não vou citar nenhum estudo aqui porque esse post não tem a pretensão de ser uma tese acadêmica, mas existem pesquisas sobre solidão afetiva e sexual de homens gays mais velhos que não sejam financeiramente bem-sucedidos. Essa dinâmica até mesmo recebeu o nome de sugar dating, em que os mais velhos e endinheirados são apelidados de sugar daddies ("papais de açúcar" em tradução livre) e os mais jovens são chamados de sugar babies ("bebês de açúcar") e tem uma relação totalmente baseada na troca de interesses financeiros e sexuais. O termo sugar ou açúcar se refere ao estereótipo de homens mais velhos por volta de quarenta anos com mais gordura na região abdominal.

No que isso se diferencia dos padrões de relacionamentos héteros descritos pelos incels? Nada. A única diferença é que são relações entre dois homens e não entre um homem e uma mulher. Então, faz sentido afirmar que a hipergamia seria uma estratégia de relacionamento natural do sexo feminino visando a reprodução? Obviamente que não já os rapazes homossexuais sugar babies sabem muito bem que eles não podem e não irão se reproduzir ao se relacionarem com o cara mais velho.


Essas narrativas têm a tendência de naturalizar padrões de comportamento que possuem raízes culturais e sociais, não naturais. Mesmo que esses dados sobre como as mulheres buscam seus parceiros sejam reais, isso vem mais de uma construção social e histórica de como os relacionamentos monogâmicos heterossexuais eram construídos até poucas décadas atrás. A própria monogamia está longe de ser natural já que também é relativamente recente na história da humanidade. Não estou tomando partido contra monogamia só expondo o fato que ela é uma construção social recente, não algo que provém da natureza humana.

Assim como a homossexualidade e outras orientações sexuais não hegemônicas não são anaturais ou anormais. As minhas memórias de atração por outros homens estão lá nas primeiras lembranças de desejo sexual da infância. Já foi cientificamente provado que a homossexualidade é uma orientação sexual natural perfeitamente possível e relativamente comum entre seres humanos e inúmeros outros animais, mesmo que em tese a mais comum na nossa espécie seja a heterossexualidade. Pessoas que praticam atos homossexuais ou homoafetivos majoritariamente não encaram tais relações como visando a procriação. Aliás, a maioria das relações heterossexuais contemporâneas não visam procriação ou não exclusivamente.

Essa visão reducionista de que a sexualidade, os instintos e impulsos humanos são movidos majoritariamente pelo interesse de procriar já caiu por terra há milênios. Inclusive, sabemos que uma das obras mais revolucionárias de Freud foram Os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade (1905), em que para horror da sociedade da época ele expôs que nem o ato de amamentar pelo bebê prioritariamente visa a satisfação da fome, mas sim o prazer de sugar. Além de que a sexualidade tendo como fim a procriação é uma ideia muito mais social e cultural do que natural. Vamos parar para analisar, quando você escolhe o que comer, você pensa exclusivamente em saciar a sua fome e obter os nutrientes ou você também pensa no prazer do paladar ou da confraternização que envolve a comida? A esse tipo de impulso Freud deu o nome de pulsão, desejos presentes na natureza humana, mas que não visam necessariamente a função biológica daquela atividade.

His Dark Materials e a repressão

Agora chegamos em His Dark Materials. Eu ainda não li os livros, então todas as analogias que vou apresentar aqui são baseadas na série e podem conter alguns spoilers, já deixando avisado de antemão.

A franquia de Phillip Pullman coleciona controvérsias por tocar em questões filosóficas espinhosas. Quem é da minha geração talvez lembre a controvérsia envolvendo o filme A Bússola de Ouro (2007). A super produção hollywoodiana adapta o primeiro livro e seria o primeiro capítulo da saga nas telonas, mas foi um fracasso imenso de bilheteria devido a boicotes de grupos cristãos. Além de o corte final do longa ter sido bastante modificado de última hora visando minimizar essas polêmicas. A Igreja Católica já chegou a acusar a série de ser "ateísmo para crianças" e o filme de ser uma afronta a fé cristã por ser lançado próximo ao Natal.

A polêmica já começa com a obra de Pullman sendo uma releitura do mito bíblico de Adão e Eva e ter sido inspirada no poema épico O Paraíso Perdido (1667) do inglês John Milton. O nome "His Dark Materials" vem de um dos versos e significa "seus materiais obscuros", os materiais utilizados por Deus na criação do universo.

Versão graphic novel.

Na primeira temporada da série, somos apresentados ao universo fantasioso da protagonista Lyra. Nele, todas as pessoas são acompanhadas de criaturas com a aparência de animais chamadas deamons. Essas figuras são projeções externas das almas das pessoas e com elas formam um único ser. Durante a infância, eles ainda não possuem uma forma fixa e podem mudar conforme a situação, porém, quando as pessoas passam pela puberdade ele acaba adotando a forma de um animal que representa o interior daquele indivíduo. O termo deamon vem do Grego e significa "espírito" ou "divindade", também está na raiz etimológica da palavra "demônio". As pessoas não conseguem ficar muitos metros longe de seus deamons e também sentem dor quando alguém os toca ou machuca. Quando uma pessoa morre, seu deamon some e vice-versa.

Essa sociedade também vive sob um regime teocrático e é governada por uma instituição religiosa de poder absoluto denominada Magisterium que nada mais é do que a Igreja Católica. Na linha do tempo alternativa de His Dark Materials, a Igreja passou por uma reforma em que não existe mais o papado formando assim o Magisterium, a reforma protestante nunca ocorreu e a instituição nunca perdeu sua hegemonia mundial. Mais para frente, descobrimos que dentro dessa religião existe a lenda de que os deamons seriam uma maldição que caiu sobre a humanidade devido ao pecado original de Adão e Eva.

O Magisterium controla governos, a impresa e barra pesquisas científicas que possam ameaçar as crenças que justificam seu poder sobre a população. Um dos assuntos mais silenciados por eles é a respeito de uma substância invisível misteriosa chamada pó que envolve os adultos, mas não está presente em crianças. O pó seria a evidência científica do pecado original contaminando as pessoas com trevas, e desejos repugnantes e sujos.

Dentro desse contexto, existe a Mrs. Marisa Coulter, uma pesquisadora que consegue apoio do Magisterium para conduzir um experimento para separar crianças de seus deamons. Eles capturam crianças da população mais pobre que é ignorada pelas autoridades e as utilizam de cobaias em instalações que parecem campos de concentração nazista. Após o processo de separação, chamado de intercisão, as crianças se tornam praticamente zumbis vazios e algumas chegam a falecer.


Marisa acredita que apesar de estar causando sofrimento, sua pesquisa é para um mundo melhor, pois estaria livrando as pessoas das trevas do pecado representadas pelos deamons. Ela também explica para Lyra que os deamons não são coisas boas e que depois que as pessoas chegam na puberdade, eles passam a inserir ideias e pensamentos desagradáveis em suas mentes.

Muitas coisas ficaram em aberto ao fim da primeira temporada, mas já podemos estabelecer alguns paralelos com questões do nosso mundo. O primeiro deles, obviamente, é o poder religioso representado pelo Magisterium, uma referência mais do que explícita à Igreja Católica e seu passado obscuro. Assim como a instituição retratada na série, a Igreja também já boicotou e retaliou pesquisas e teorias científicas que pudessem ameaçar a fé que as pessoas tinham nos mitos e dogmas propagados pela instituição. Como a teoria da evolução de Charles Darwing ou o heliocentrismo de Copérnico.

Podemos fazer uma clara relação entre os deamons e a sexualidade, impulsos e pulsões humanas já que na série é falado que eles passam a inserir pensamentos pecaminosos nas pessoas a partir da puberdade. Então, observamos que no universo de Lyra, as tentativas de retirar e controlar os deamons podem ser vistas como analogias de repressão da sexualidade humana pelo moralismo religioso. Também semelhante ao praticado pela Igreja Católica durante a Santa Inquisição em que um dos critérios para condenar mulheres como bruxas à fogueira era descobrir que elas sentiam prazer sexual.

Apesar de parecer distante da nossa realidade, o processo de intercisão pode ser comparado à mutilação de genitálias femininas que ocorre até hoje em alguns países e que possui justificativas muito parecidas: livrar as pessoas do pecado.

Repressão da sexualidade como forma de dominação

Uma das coisas que também foi bastante defendida nos trabalhos de Freud é que uma das evidências da importância da sexualidade humana para a psique é justamente a quantidade de sociedades e códigos morais que buscavam reprimir tais impulsos a fim de conservar a ordem. A psicanálise surgiu como investigação de um transtorno que na época era chamado de histeria que seriam sintomas neuróticos que estariam relacionados à repressão da sexualidade e desejos das mulheres da época. Atualmente a histeria não é mais uma patologia associada ao gênero feminino e foi divida em vários diagnósticos diferentes.

Para Freud, não existe sociedade sem repressão. Em O Mal-Estar na Civilização (1930), Freud teoriza sobre a sensação de mal-estar que sempre vai existir na humanidade em decorrência da repressão inevitável que uma sociedade demanda. O processo de educar uma criança, por exemplo, consiste em reprimir impulsos e comportamentos inadequados para o convívio social, como andar sem roupa ou fazer xixi fora do banheiro. Porém, a repressão em excesso gera sintomas, neuroses e outros males psíquicos. Porque apesar de sermos seres civilizados, não conseguimos nos desprender da nossa natureza carnal e animalesca.

Portanto, é fácil compreender que esse discurso incel tratando a liberdade sexual feminina como algo ruim vem justamente da frustração de estarem perdendo capacidade de dominação. São pessoas que estavam acostumadas ou querem o retorno de uma sociedade que as privilegiava em relacionamentos sem que elas precisassem se esforçar tanto para se tornarem parceiros interessantes. Também é falaciosa a alegação de que infidelidade seria algo inerente do sexo feminino devido a suposta hipergamia sendo que homens também são infiéis independentemente de classe social.

Às vezes a natureza humana nos assusta em nossos próprios impulsos, imagina nos impulsos do nosso parceiro afetivo? Imagino que seja mais fácil criar teorias ou preservar valores que reprimem tal natureza assustadora ao invés de aprender uma nova forma de viver mais funcional e menos neurótica. A neurose vem justamente por uma dificuldade em lidar com uma realidade dolorosa que um ego frágil tem dificuldade de suportar. Nesse sentido, é bastante irônico que a "pílula vermelha" dos incels seja, na verdade, uma ilusão para afastá-los da realidade de que eles não são tão especiais e merecedores da atenção feminina quanto acreditam.

Estou ansioso para assistir os próximos episódios da série cuja segunda temporada acabou de estrear e também separei os livros para ler. Pelo que me adiantaram, os próximos volumes vão ainda mais fundo nas críticas à moralidade e mitologia cristã.

O que vocês acham a respeito dos pontos que eu levantei aqui? Deixem a opinião de vocês nos comentários, sempre gosto de ler! 😊


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